sexta-feira, 29 de maio de 2015

Reflexão do Evangelho - Domingo 31 de Maio

Reflexão do Evangelho
Mt 28, 16-20 - SS. Trindade – Um só Deus em três Pessoas
Domingo 31 de Maio
    
A felicidade parece ser objeto de um desejo universal; não há quem não busque ser feliz. Felicidade, diziam os antigos filósofos, é o bem em si mesmo, e a ele se subordinam, como meios para atingi-lo, todas as demais realidades. Em cada ação, como que em breves instantes, porém maravilhosos, o homem vive a felicidade, ou seja, sua existência realizada.   
        Para a revelação bíblica, a fonte suprema da felicidade é Deus, um Deus não distante nem do mundo, nem da história humana. Acessível ao homem, Ele estabelece uma relação dialogal com a humanidade. Orígenes, teólogo alexandrino, refere-se ao diálogo realizado entre Deus e o homem, em nossa peregrinação terrena, como participação do eterno diálogo “no céu” entre o Pai e o Filho no Espírito Santo. Dom divino, o diálogo com Deus não suprime a natureza humana nem o uso da razão. Embora as supere, continuam válidas as afirmações de que se deve buscar a razão e a justificação do que se crê.
Nesse sentido, os teólogos procuraram explicar o mistério da Santíssima Trindade: um só Deus em três Pessoas. Cada Pessoa é um modo único e próprio de dar e de receber a essência divina, presente plenamente em cada uma delas. Segundo o Novo Testamento, o Pai revela-se plenamente em seu Filho Jesus; no Espírito Santo esta revelação de Deus se torna realidade permanente que atinge o homem até o íntimo do ser.  
Para expressar o mistério trinitário, os primeiros cristãos empregaram diversas imagens. No terceiro século, Orígenes utiliza a imagem da luz. O Pai, descrito como a fonte da luz divina, deseja iluminar o coração de todos os seres humanos, que jazem em meio às trevas do pecado e do erro. Em seu infinito e inesgotável amor, Ele envia o próprio Filho, eterno esplendor da luz divina, que assume nossa humanidade, incluindo-nos nele. Os que acolhem a sua palavra são denominados iluminados (photismoi), no dizer de S. Justino, no final do segundo século.  

        A pessoa de Cristo, que adquire presença em nós pela força do Espírito Santo, realiza a nossa salvação: Deus conosco. Somos então introduzidos no coração da Trindade e alcançamos a felicidade, a plena realização, e pela prática concreta e simples do amor fraterno, cada um de nós se torna um “ressuscitado”, “uma pessoa trinitária”.

Reflexão do Evangelho - Sábado 30 de Maio

Reflexão do Evangelho
Mc 11, 27-33 - Questões sobre a autoridade de Jesus
Sábado 30 de Maio
      
       De cidade em cidade, Jesus passa ensinando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus. Ele percorre a Galileia trazendo esperança à população simples e carente. Ela o aclamava e o seguia. Em Jerusalém, ele não se cala, nem se intimida diante dos doutores e sacerdotes, que não o veem com bons olhos. Também aí, ele ensina e as multidões aglomeram-se para ouvi-lo. Uma delegação do Sinédrio, supremo conselho do povo judeu, constituído por sacerdotes e escribas, aproxima-se dele para interrogá-lo: “Com que autoridade fazes estas coisas?” Quem lhe teria outorgado o poder de ensinar?
À diferença dos greco-romanos, que consideravam o poder como algo obtido e consolidado pela força, Israel o vê como dom concedido por Deus em vista de uma missão ou do exercício de uma tarefa em benefício do povo. Colocando-os nesse contexto, Jesus remete-os a João Batista e, à maneira rabínica de discutir, responde com outra pergunta: “O batismo de João era do Céu ou dos homens?” Os escribas e sacerdotes ficam pasmos, pois o povo tinha João Batista como um profeta. A mesma conclusão caberia a Jesus, cuja autoridade se expressa na força profética de seus ensinamentos, no perdão dos pecados e na ordem dada aos demônios.  
Nesse sentido, observa S. Agostinho: “Assalta-os o temor de eles serem apedrejados pelo povo, que considerava João Batista um profeta. Outro temor ainda maior os invade: o de confessar a verdade. Por isso, eles respondem com falsidade: ‘Não sabemos’”. Jesus não contesta, deixando-os ainda mais perplexos: Se João tinha autoridade, quanto mais Ele! Sua autoridade repousa, sobretudo, em seus ensinamentos, porque se milagres acontecem, não são eles o essencial de sua missão. De fato, a multidão, que o acompanha, reconhecendo seu amor misericordioso, sua generosidade e o coração compassivo diante do sofrimento e das dores de cada pessoa, crê em suas palavras. Ela se sente amada e o considera um enviado de Deus, que age e fala por Ele.

Seus adversários não o compreendem, particularmente, como destaca S. Beda, “por duas razões. Os que o procuram, por serem incapazes de entender o que buscam ou porque são indignos de se abrirem à sua palavra, minados pelo ódio ou pelo desprezo à verdade”. Após dizerem “não sabemos”, os sacerdotes e escribas se calam, pois, em sua autossuficiência, eles não são capazes de conceber nem a humildade e tampouco o amor desinteressado, o que leva Tertuliano a dizer que “eles não conseguiam dar uma resposta consistente, pois não eram capazes de entender nem crer”.  

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Reflexão do Evangelho - Sexta-feira 29 de Maio

Reflexão do Evangelho
Mc 11, 11-26 - A figueira seca e a expulsão dos vendilhões do Templo
Sexta-feira 29 de Maio
         
        A missão terrena de Jesus se centraliza e culmina em Jerusalém, a cidade santa. O fato de sentir fome e buscar figos, justamente em tempo inadequado, mostra que “Ele tinha fome, escreve S. Agostinho, não de figos, mas de outra coisa; existem os que não podem dar fruto porque não querem. A esterilidade é culpável quando a infecundidade é voluntária. Os judeus possuíam as palavras da lei, mas não tinham as obras; estavam cheios de folhas, e não davam fruto”. Ato intencionalmente simbólico de Jesus, que visava despertar na mente dos Apóstolos algo que eles não percebiam imediatamente: a relação de Israel com Deus e a morte do Templo.
Chegando a Jerusalém, eles se dirigem logo ao Templo, que era para Israel a lembrança constante da presença de Deus no meio de seu povo. Sinal da suprema beleza e santidade divina.  Dele ecoava o imperativo de que Israel, povo de Deus, através das boas obras, procurasse a santidade e excluísse de sua vida toda contaminação profana. No Templo, o “piso” ao redor do centro, nomeado “o santo” ou “o santo dos santos”, era tido como o lugar da insuperável glória do Deus três vezes Santo. Centro do culto a Deus, a ele veem as peregrinações para contemplar “a face de Deus” (Sl 42,3).   
       O Templo é para Jesus a casa do Pai. Porém, ao entrar no Templo, Jesus vê bois, ovelhas e pombas, animais que serviam de oferendas para os sacrifícios. Os cambistas ofereciam os meios para que fossem comprados. O “zelo” pela casa de Deus leva-o a expulsá-los. Ele substitui a pureza ritual pela limpeza moral e, num gesto profético, proclama ser o Templo “casa de oração” para todas as nações. Profecia que se consumará ao romper o véu do Templo, por ocasião de sua morte.   

       À tarde, Jesus e os Apóstolos retiram-se da cidade e, após descansarem, retomam o caminho para Cafarnaum. De madrugada, ao passarem pela figueira, Pedro diz ao Mestre: “Rabi, olha, a figueira que amaldiçoaste, secou”. Diante do espanto do Apóstolo, Jesus os exorta a terem uma fé destituída de dúvidas: “Tende fé em Deus. Em verdade vos digo, se alguém disser a este monte: ergue-te e lança-te ao mar, e não duvidar no coração, mas crer que o que diz se realiza, assim lhe acontecerá”. Mediante uma fé firme e impertérrita em Deus, mesmo o que parece impossível se realizará, pois, diz Tertuliano, “um pai, mais pai que Deus, não há; um mais terno, não há”. Essa mesma confiança animará os discípulos em sua oração e será selada, como no Pai-Nosso, com o sincero perdão fraterno. 

Reflexão do Evangelho - Quinta-feira 28 de Maio

Reflexão do Evangelho
Mc 11, 11-26 - Cura do cego de Jericó
Quinta-feira 28 de Maio
      
       Seguidos por uma multidão, Jesus e os Apóstolos aproximam-se de Jericó. Sentado à beira do caminho, um cego chamado Bartimeu pedia esmola. “Ao ouvir que era Jesus, o Nazareno, que passava, começou a gritar: Filho de Davi, Jesus, tem compaixão de mim! ” Os peregrinos, que caminhavam rumo a Jerusalém, sentem-se perturbados. Embora ameaçado, o cego percebe que o momento é aquele, momento da graça divina. Por isso, persiste e, deixando a sua veste, “deu um pulo e foi até Jesus”. Segundo S. Beda, esse fato “simboliza a Igreja primitiva dos gentios, os quais, almejando a luz de Cristo, seguem os ensinamentos do Evangelho desnudos, isto é, despidos dos poderes do mundo, o que os torna merecedores da posse do tesouro eterno no céu”.
        O grito confiante do cego atrai a atenção de Jesus. Ele não passa ao largo, mas detém-se e pergunta-lhe: “O que queres que eu te faça? ”. Trêmulo no corpo, firme no espírito, ele responde: “Senhor, que eu possa ver novamente”. Se antes, ele clama ao Filho de Davi, o Messias, agora ele o chama de Senhor. Verdadeira profissão de fé. Realiza-se então o instante tão esperado e desejado por ele, o Senhor o cura devolvendo-lhe a vista e, em sua bondade misericordiosa, livra-o também da cegueira espiritual: a luz divina penetra e envolve o seu ser.
 Abriram-se seus olhos corporais, também “o olho interior”, pois tudo depende da real liberdade da fé. A propósito disso, escreve Clemente de Alexandria: “O cego recebe a Cristo, recebe o poder de ver, recebe a luz, o Logos eterno de Deus”. E pondo-se em lugar do cego, diz ele: “Pois até agora eu me encontrava errante buscando a Deus, mas, como tu me iluminaste Senhor, encontrei não só a Deus através de ti, mas também por ti recebi o Pai e transformei-me em teu coerdeiro, e tu não te envergonhas de teu irmão”.  E, examinando-se, conclui: “Ponhamos fim ao esquecimento da verdade, rechaçando a ignorância e a treva, que nos impedem a visão espiritual. Contemplemos a verdade de Deus”.  

        O episódio bíblico se encerra com as palavras consoladoras de Jesus: “Vai, a tua fé te curou”. O cego dá glória a Deus e, como os anjos em Belém, anuncia que Jesus é o Filho de Davi, Senhor. Pasmos e extasiados, reconhecemos que, movido pelo sopro vital, proveniente do insondável abismo do amor e da sabedoria de Deus, ele assumiu sua finitude e, pela fé, abriu o seu coração à misericórdia divina; “e ele o seguia pelo caminho, glorificando a Deus”.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Reflexão do Evangelho - Quarta-feira 27 de Maio

Reflexão do Evangelho
Mc 10, 32-45 – Pedido dos filhos de Zebedeu
Quarta-feira 27 de Maio
      
       A expectativa era grande. Os Apóstolos aguardavam a qualquer momento a manifestação do Reino de Deus. Com um olhar sereno, porém triste, Jesus fala de sua morte e ressurreição: “O Filho do Homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e aos escribas; eles o condenarão à morte e o entregarão aos gentios..., e três dias depois ressuscitará”. Absorvidos em seus pensamentos de glória, os discípulos não o entenderam bem. Dois deles, Tiago e João, filhos de Zebedeu, pressentem em suas palavras o anúncio da iminência da realização messiânica. Não tinha sido fácil percorrer o caminho até ali: quanto sofrimento, quantas incompreensões, quantas acusações dos adversários. Encorajando-se mutuamente, eles pedem ao Mestre que lhes conceda, na sua glória, “sentaromemn HH um à direita e outro à esquerda” em seu Reino.
Não é a primeira nem a última vez que o Evangelho sublinha o desejo de precedência. Há uma ambição a ser corrigida. Olhando para eles, pergunta-lhes Jesus: “Podeis beber o cálice que eu vou beber, ou receber o batismo que estou para receber? ” Surpresos pela pergunta, sem titubear, eles respondem: “Nós podemos”. De fato, Tiago morrerá mártir e João estará no Calvário, partilhando do cálice com Jesus, no sofrimento da cruz. Embora não se pronuncie sobre quem irá sentar-se à direita ou à esquerda em seu Reino, Jesus não deixa de despertar nos Apóstolos a consciência de ser Ele o Filho amado de Deus, por quem e em quem se realiza o desígnio do Pai.
A decisão última cabe ao Pai. No momento, o importante não é preocupar-se com o lugar que se terá na glória do Senhor, mas empenhar-se em participar, desde já, do Reino de Deus. Observa S. Agostinho: “O caminho para sua glória, a pátria celeste, é a humildade. Se tu recusas o caminho, por que buscas a pátria? ” Os outros Apóstolos murmuravam contra os dois irmãos, pois também eles desejavam a mesma honra. Conhecendo o que se passava em seus corações, Jesus os exorta a colocarem-se a serviço de todos, pois “aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos”. O exemplo clamava: O filho do Homem veio não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.

As palavras de Jesus pregam serviço, simplicidade, humildade. Os Apóstolos pareciam divagar, pois estavam absorvidos por pensamentos de triunfo e de glória. Eles o escutavam e, mais tarde, irão repetir essas palavras, mas naquele momento não as ouvem em seu coração. O Senhor se sente só. Mais tarde, na sexta-feira santa, eles hão de compreendê-las. 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Reflexão do Evangelho - Terça-feira 26 de Maio

Reflexão do Evangelho
Mc 10, 28-31 - A recompensa pelo desprendimento
Terça-feira 26 de Maio

              Talvez uma das coisas mais importantes que a vida cristã apresenta seja o desprendimento ou a renúncia. O exterior da realidade material esconde sua grandeza espiritual interior. Assim graças ao poder da renúncia, a visão das coisas adquire uma natureza mística e o ser humano olha o mundo sob um ponto de vista secreto que dá a chave para uma nova compreensão da vida; “o corpo torna-se ligeiro, alegre, e munido de asas”, escreve Evágrio. O que está no homem é mais forte de tudo o que está no mundo e, na liberdade da renúncia, ele encontra o segredo de sua fecundidade. Daí o fato de S. João Batista ser representado nos ícones com asas.
Muitos outros termos, que remontam às tradições pré-cristãs, foram adotados pelos cristãos para designar a renúncia, como purificação, ascese, mortificação e domínio de si mesmo. A renúncia, em sentido espiritual, não é um termo negativo; ela permite olhar para as coisas comuns e para as pessoas comuns através da luz mística, que deixa, no dizer de Orígenes, “o divino Mestre liberar do meio das areias, presentes no fundo da alma, o poço de água viva, na qual se vislumbra a imagem de Deus escondida em nós”.
       A renúncia não resulta do medo de viver ou do ócio da vida, como talvez interpretasse Nietzsche, mas brota de um coração livre de toda ganância, movido pelo desejo de estar aberto a Deus e ao próximo. Expressão da bela aliança entre o amor e a liberdade espiritual, ela é a resposta humana ao amor de Jesus. Pela renúncia, obstáculos insuperáveis são vencidos e chega-se a participar da recompensa prometida para o final dos tempos. Nesse sentido, S. João Cassiano observa: “Quem renuncia, por causa do Senhor, pai, mãe, filho, para entrar no verdadeiro e puro amor de todos os servidores de Cristo, recebe cem vezes mais em irmãos e pais. Porque em vez de um só pai, de um só irmão, terá doravante uma multidão que está unida a ele pelos laços de afeto muito mais ardente e elevado”.

Aos que interpretam a renúncia como negação da “vontade de viver”, diríamos ser ela resposta de amor, fruto da audácia de se viver na bondade e na misericórdia divina. Na realidade, ela libera a força interior da natureza humana em seu desejo de felicidade e de comunhão com Deus, e nossos corações encontram alegria, paz e tranquilidade interior (hesequia). Graças à renúncia, passamos através da estreiteza da natureza humana para uma plenitude de vida e de doçura, no amor sincero até mesmo aos nossos inimigos. Portal para uma vida plena, ela nos leva a proclamar que Deus continua a abençoar a criação e a dizer que ela é sinal da bondade divina. 

domingo, 24 de maio de 2015

Reflexão do Evangelho - Segunda-feira 25 de Maio

Reflexão do Evangelho
Mc 10, 17-27 - O jovem rico
Segunda-feira 25 de Maio

       Um jovem procura Jesus não com o intuito de segui-lo, mas de assegurar-se da salvação: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna? ” A pergunta sugere a ideia de ele julgar ser possível alcançar a salvação, mediante suas obras. Convidando-o a passar de uma visão cultual e legalista a uma visão moral-espiritual, Jesus lhe diz: “Por que me perguntas sobre o que é bom? O Bom é um só”. Ninguém é bom, senão só Deus. E ao ouvi-lo afirmar que conhece e observa os mandamentos, após lançar um olhar de afeto por ele, o Mestre apresenta-lhe um desafio: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus”.   
       Este episódio gravita ao redor das posses de um jovem rico. Possivelmente, guiado pela ideia de que as riquezas e o sucesso terreno são sinais das bênçãos divinas, ele julgue que a porta de acesso ao céu esteja vinculada aos bens materiais. Como consequência, S. João Crisóstomo não o considera como alguém movido por más intenções ou “ser ele avaro e escravo do dinheiro”. Talvez, dominado por uma mentalidade materialista e, sendo presunçoso, estaria colocando sua confiança, prevalentemente, em si mesmo e em seus bens. Nesse sentido, ao chamar Jesus de “bom Mestre”, ele bem poderia estar refletindo a esperança de ganhar, através do agrado e do elogio, os bens eternos.
O Senhor o ouve pacientemente. E através de questões e breves sugestões, mais uma vez, busca elevar o pensamento do seu interlocutor a um ponto de vista sobrenatural. De início, Jesus pressupõe a validade do Decálogo, reforçado pelo fato de o jovem observar os mandamentos, para então mostrar-lhe o seu significado mais profundo: a verdade e o amor sem limites a Deus. Ele pode aspirar por coisas mais altas, mediante a renúncia aos bens materiais, como os Apóstolos, ou continuar o seu caminho, mantendo suas riquezas e posses materiais. Ele faz a sua opção e se afasta, levando S. Agostinho a exclamar: “Quanto se deve amar a vida que não terá jamais fim! Tu que amas esta vida na qual sofres e te afliges, em meio a tantas preocupações, busca a vida eterna, onde não suportarás estes sofrimentos, mas reinarás eternamente com Deus”.

       Esta passagem bíblica permite-nos distinguir os mandamentos de Deus, válidos para todos, dos conselhos evangélicos, abraçados pelos que desejam viver em radicalidade o preceito do amor a Deus e ao próximo. Aliás, desde os primeiros anos da Igreja, observa-se que a renúncia aos bens materiais não é um preceito obrigatório para todos. Obrigatório é ser livre em relação a todos os bens. Nos Atos dos Apóstolos, S. Pedro dirige-se a Ananias, que reservara para si uma parte do preço do campo, e lhe pergunta: “Por acaso não podias conservá-lo sem vendê-lo? E depois de vendido não podias dispor livremente da quantia? ” (5,4).