quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Reflexão do Evangelho de Mt 24, 42-51 - Vigiar para não ser surpreendido - Quinta-feira 28 de Agosto

Reflexão do Evangelho de Mt 24, 42-51 - Vigiar para não ser surpreendido
Quinta-feira 28 de Agosto

Deus oferece o maior e mais belo tesouro, seu Reino de paz, de alegria e de justiça. Realidade espiritual que supera tudo que é passageiro e adquire um novo sentido à luz da mensagem de Jesus. Podemos, no entanto, perdê-la caso não formos vigilantes. O Reino virá como um raio que “lampeja no Oriente e ilumina até o Ocidente”, lembrando os dias “que precederam ao dilúvio”. “Estavam eles, diz o Senhor, comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca”. E Ele conclui, “assim acontecerá na Vinda do Filho do Homem”. Orígenes, grande escritor do século III, exorta “a vigiar, à tarde, isto é, na juventude, à meia noite, na idade média, ao canto do galo, no tempo da velhice ou de madrugada, quando a velhice está já avançada”. Continua ele – “Virá o Senhor ao que não deu sono aos seus olhos, nem descanso às suas pálpebras, e guardou o mandamento daquele que disse: Vigiai em todo tempo”. Ocorrerá, então, a parusia, a volta de Jesus, em sua glória no tempo do Fim. Os que se prepararam, na observância de seus ensinamentos, participarão da plenitude da sua alegria na glória do Pai.
Mas a vinda do Senhor, quando será? Jesus ensina aos discípulos que “quanto àquele dia e àquela hora, ninguém o sabe, nem mesmo os anjos do céu, mas somente o Pai”. O próprio Jesus diz: “Não vos pertence saber”. S. João Crisóstomo vê nestas palavras o apelo do Senhor para que “cada um sempre o espere e sempre se empenhe” no serviço aos pobres e desvalidos. Por conseguinte, nestes poucos versículos, o autor bíblico delineia a sorte contrastante dos judeus incrédulos e dos discípulos de Cristo, vigilantes. Tal quadro é projetado na história e atravessa os tempos na caminhada para o encontro final com Cristo.  
         Se cada um participa pessoalmente do “pecado do mundo”, também a retribuição não deixa de ser pessoal. Pois a alma, no dizer de S. Agostinho, “deseja unir-se diretamente ao Senhor, sem que nada se interponha entre ela e Deus”. Importante é vigiar para não ser surpreendido ou, em outras palavras, urge viver cada instante, intensamente, situando-se nos horizontes ternos da misericórdia de Deus.  


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Reflexão do Evangelho de Mt 23, 23-32 - Ai de vós fariseus (II) - Terça-feira 26 Agosto e Quarta-feira 27 de Agosto

Reflexão do Evangelho de Mt 23, 23-32 - Ai de vós fariseus (II)
Terça-feira 26 Agosto e Quarta-feira 27 de Agosto

       Os fariseus cumprem a Lei com escrupulosa exatidão, a ponto de pagar o “dízimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças”. Porém, não atendem a exigências de caridade e de justiça para com o pobre e desvalido. Exteriormente, comportam-se de modo exemplar, interiormente, estão distantes e afastados do verdadeiro cumprimento da Lei dada por Deus a Moisés.
Eis então que a voz do Senhor, penetrante como um dardo, ressoa por sobre a Cidade Santa: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!” Vós que não cumpris o verdadeiro sentido da Lei. E de seus lábios, ecoam as palavras ditas pelos profetas, que apregoavam o direito, a misericórdia e a fidelidade. Ao invés, os fariseus agem, “como se não houvesse importância, observa S. Cirilo de Alexandria, a justiça e o amor a Deus, deveres obrigatórios a todos”. Ora, o fingimento e a falsa piedade, considerados por Jesus pecados contra o Espírito Santo, devem ser evitados por seus discípulos.  Daí falar-lhes, como jamais fizera antes: “Estai atentos a não fazerdes vossa justiça  diante dos  homens,  para  que vos  vejam; de outro modo não tereis recompensa diante de vosso Pai, que está nos céus” (Mt 6,1).
       Ai de vós, peritos das Escrituras! Hipócritas! O povo ouvia Jesus com espanto e temor. Caíam as máscaras dos que se consideravam sábios e guias do povo, e manifestava-se o vazio de seus corações. Essa era justamente a intenção de Jesus. Suas palavras não eram de condenação, elas visavam à conversão ou à transformação interior dos seus corações. A todos, Jesus sempre manifestou sua compaixão e carinho, e agora Ele quer convertê-los e levá-los à realização da vontade do Pai. Mas por se julgarem os únicos verdadeiros intérpretes da Lei, eles se sentem agredidos e ofendidos pelas suas palavras e, rejeitando-o, tudo fazem para que o povo não o acolha. Mas a palavra do Mestre não foi em vão. Muitos de seus ouvintes reconhecem que sua crítica funda-se no fato de os fariseus permanecerem  presos às  práticas  exteriores,  “limpar copos e pratos” , não indo além, ao sentido espiritual, à purificação interior (tò entós) do coração.  Pois é através do visível, como de um trampolim, que se eleva à contemplação do espiritual.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

domingo, 24 de agosto de 2014

Reflexão do Evangelho de Mt 23, 13-22 - Ai de vós escribas hipócritas - Segunda-feira 25 de Agosto

Reflexão do Evangelho de Mt 23, 13-22 - Ai de vós escribas hipócritas
Segunda-feira 25 de Agosto
             
       Os escribas e fariseus substituem o espírito da Lei, que tem por base o amor a Deus e aos homens, por suas tradições humanas e múltiplas normas rituais. Surdos aos profetas, eles já tinham perdido o sentido profundo de suas palavras, e esqueceram-se das recomendações do profeta Miqueias, que exortava “a praticar o direito, a amar a misericórdia e a caminhar humildemente com o seu Deus”. Porque citam os profetas, mas não os traduzem em suas próprias vidas, Jesus denomina-os cegos e hipócritas. Admoestações duras e severas, mas não condenatórias. O objetivo de Jesus é levá-los, diz S. Cirilo de Alexandria, “à prática de julgar, reta e impecavelmente, seus semelhantes sem jamais abandonar a misericórdia e a sinceridade”.
        A palavra hipócrita significa usar máscara ou fazer algo para chamar a atenção dos outros sobre si mesmo. Os escribas e fariseus, que devotavam suas vidas ao estudo da Lei de Deus, dominados pela vaidade, consideravam-se seus únicos e autênticos intérpretes. Às demais pessoas, eles impingiam numerosas exigências e, em seu zelo confuso, distanciavam-se da perspectiva de Deus e de seus propósitos a respeito da Lei, chegando ao extremo de legislar sobre pequenas e insignificantes coisas. Em seu rigorismo, eles acresciam aos dez mandamentos e aos preceitos divinos milhares de pequenas regras e regulamentações, que deveriam ser cumpridas pelo povo. Indignado, Jesus não se cala. Recrimina-os por negligenciarem o mais importante: a justiça, o amor a Deus e os cuidados devidos aos necessitados, fracos e doentes.
       No entanto, a Lei mosaica não é abolida por Jesus, tampouco as tradições particulares. Elas conservam a sua importância, como Ele próprio acentua: “Pois nelas preparamo-nos para as grandes coisas”. Seu intuito é corrigir a perspectiva dos seus ouvintes, para que eles não tomem o secundário pelo essencial ou, no dizer de Orígenes, para que eles não se fixem no sentido literal das Escrituras, esquecidos do sentido espiritual, ao qual Jesus remete constantemente os seus ouvintes. Para exemplificar, Orígenes cita a prescrição de lavar o interno dos copos para não se manchar, perguntando: “Estariam eles, com essas práticas, preparando-se realmente para a purificação do próprio pecado?” Na realidade, eles não vão além do sentido literal da Lei e, por isso, não são capazes de entender as palavras de Jesus como apelo à conversão e à mudança no modo de pensar, agir e viver.


 Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Reflexão do Evangelho de Mt 16, 13-20 - Confissão de São Pedro - Domingo 24 de Agosto

Reflexão do Evangelho de Mt 16, 13-20 - Confissão de São Pedro
Domingo 24 de Agosto

       Na bela cidade de Cesareia, reedificada pelo tetrarca Felipe no ano 3-2 a.C, Jesus interroga seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” A própria pergunta sugere um ponto de vista humano. A opinião popular identificava-o com um dos profetas do passado. “Disseram-lhe: uns afirmam que és João Batista, outros que és Elias, outros, ainda, que és Jeremias ou um dos profetas”. Voltando-se para os Apóstolos, Jesus pergunta: “E vós quem dizeis que eu sou?” Eles pressentem, diz S. Hilário, que, “para além do que se via nele, havia algo mais”. A resposta decisiva e imediata, em nome de todos, é dada por Pedro. Não fundado em premissas puramente humanas, mas sob a inspiração do alto, ele proclama a sua natureza divina: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas!” - confirma Jesus a sua profissão de fé, porque “não foram o sangue nem a carne que te revelaram isto, mas sim o meu Pai que está nos céus”. O Apóstolo Pedro crê ser Jesus o Filho de Deus, e sua declaração torna-se a profissão de fé da Igreja da Nova Aliança.   
Desde então, Jesus não mais pergunta, apenas profere algumas afirmações. Ao Apóstolo Pedro, ele declara: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”. Ratifica o nome dado a Simão, em seu primeiro encontro, e o designa como fundamento de sua Igreja, que supera a “qahal”, assembleia dos fiéis, do Antigo Testamento. Teodoro de Mopsuéstia comenta: “Ao dizer que sua confissão de fé é uma rocha, Jesus afirma que, sobre esta rocha, construiria a sua Igreja”, sacramento da unidade do Deus Trino. Cabe a Pedro solidificá-la, confirmando os irmãos na fé e na prática da fé.
       Ao dizer-lhe: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus”, Jesus confere-lhe poderes de ordem espiritual, que evocam a ideia rabínica de excluir da comunidade ou nela admitir. A Igreja se perpetua: “Eu estarei convosco até o fim dos tempos”, pois Ele não a abandona às forças da destruição, e a função do Apóstolo Pedro continua, através de seus sucessores, até nossos dias. S. Leão Magno lembra que “o primeiro a reconhecer o Senhor é o primeiro em dignidade entre os Apóstolos”. Caracterizam-no a prontidão de um coração caloroso e, sobretudo, a acolhida do dom de Deus: natureza e graça divina. Orígenes exclama: “É belo que Pedro tenha dito ao Salvador: ‘Tu és o Cristo’; melhor ainda, o fato de ele reconhecê-lo como ‘o Filho do Deus vivo’. O próprio Jesus dissera, pelos profetas: ‘Eu sou o Vivente!’ No Evangelho, Ele proclama: ‘Eu sou a Vida’”. A profissão de Pedro é proclamada por seus sucessores e pelos que creem em Jesus. A todos, Ele diz: “Bem-aventurados sois vós”. E neles refulge a luz do Pai.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

Reflexão do Evangelho de Mt 13, 44-46 - As parábolas do tesouro e da pérola - Sábado 23 de Agosto

Reflexão do Evangelho de Mt 13, 44-46 - As parábolas do tesouro e da pérola
Sábado 23 de Agosto

       O Reino de Deus e o mundo novo que há de vir inauguram-se com a pregação de Jesus, que reúne ao seu redor os que se convertem e vivem a Lei nova do amor e da misericórdia. Essa mensagem é anunciada a todos e não conhece privilégios. Dirigindo-se às pessoas simples da Galileia, Jesus destaca que mesmo as realidades frágeis e precárias desta terra adquirem um novo sentido à luz do mistério de sua encarnação, pela qual reconhecemos que Ele se tornou um de nós, para que nós nele nos tornemos o que Ele é.
Em outras palavras, todos os homens podem alcançar a bem-aventurança da Terra Prometida do Reino de Deus, comparado por Jesus a um tesouro enterrado, descoberto de modo fortuito. Quem o encontra, com alegria, vai e vende tudo o que possui para comprar o campo. O mesmo acontece com o negociante que, “ao achar uma pérola de grande valor, vai e vende tudo o que possui e a compra”. A pérola é reconhecida pelo seu valor, beleza e perfeição. Em outras palavras, o Reino de Deus é o tesouro ou a pérola, cujo preço é inacessível e supera toda riqueza material.
Dom precioso, o Reino de Deus nos atrai e, ao mesmo tempo, nos impede de identificá-lo totalmente com o mundo material, pois graças a ele, exclama Pascal, “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Por conseguinte, nenhum condicionamento meramente humano pode contê-lo, nem defini-lo. Mas, embora ele seja uma dádiva divina, Deus não dispensa jamais a cooperação humana, como evidenciam as palavras de Jesus, dirigidas ao paralítico, antes de curá-lo: “Tua fé te salvou”.
         Portanto, o Reino não é apenas iniciativa de Deus (ex opere operato), independente da ação do homem, pois Deus, em seu amor, espera a resposta livre do amado, como se tudo dependesse da sua decisão. Neste sentido, a parábola contada por Jesus pressupõe esforço e sacrifício daquele que encontrou o tesouro: ele vai e vende tudo o que possui para comprar o campo, onde se encontra o tesouro. Assim, também nós devemos estar prontos a atender ao convite do Senhor: vender tudo, isto é, despojar-nos do pecado, dos vícios e das paixões desordenadas para alcançar o Reino de Deus. Nossa colaboração é essencial. O mesmo se diga da oração, que jamais poderá ser compreendida como total passividade, ela é tensão interior, abertura do espírito humano para receber o Espírito divino, que conduz aquele que ora ao coração mesmo do mistério de Deus. Por isso, animando-nos, diz admiravelmente S. João Crisóstomo: “Participai do banquete da fé, acolhei todos vós as riquezas da misericórdia”.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 1, 26-38: Anunciação do Senhor (N. Senhora Rainha) - Sexta-feira 22 de Agosto

Reflexão do Evangelho de Lc 1, 26-38: Anunciação do Senhor (N. Senhora Rainha)
Sexta-feira 22 de Agosto

O arcanjo Gabriel anuncia a Maria que o Espírito Santo descerá sobre ela e a cobrirá com a sua sombra, assim como a nuvem, presença de Deus, tinha descido sobre o monte Sinai. Por isso, aquele que nascer dela será santo e chamado Filho de Deus. Com a resposta: “Seja feita a tua vontade”, Maria acolhe em sua humanidade a ação santificante do Espírito divino, que preside ao nascimento de Jesus. S. Justino e S. Irineu leem esta passagem à luz do relato do Gênesis e traçam um paralelo entre Maria e Eva, “a mãe de todos os viventes”, entre o “fiat”, o faça-se da anunciação, e a desobediência dos primeiros pais, causa decisiva do pecado original. Assim, diante da pergunta: “Como é que vai ser isso?”, o anjo conduz Maria à fé e à obediência, ao contrário do anjo mau que incita Eva à desobediência e à incredulidade.
Paralelismo presente na Tradição antiga, também nos comentadores contemporâneos. Longe de ser artificial, ele oferece ao acontecimento um alcance absolutamente universal, como bem observa S. Beda: “Como Eva trouxe em seu seio toda a humanidade condenada ao pecado, agora Maria traz o novo Adão que, com a sua graça, dará vida a uma nova humanidade”. Aquele que nasce de Maria, um dentre nós, é capaz de englobar todos nós, incluindo todas as possibilidades da humanidade, não excluindo nada de cada um, a não ser o pecado. Por isso, não é ousado declarar que Jesus só podia fazer-se homem nascendo da Virgem Maria, herdeira da História da salvação.
Se, na origem, houve o casal Adão e Eva, agora, no princípio da nova criação, também há uma mulher e um homem, José, indicado como sendo “da linhagem”, “da casa de Davi”. Cumprem-se assim as profecias e proclama-se que Jesus é o Messias esperado e anunciado pelos profetas. E ao dizer que “o anjo Gabriel foi enviado por Deus”, esperançosa mensagem chega até nós, pois ela procede do alto e o que em Maria se realizou é iniciativa do Deus Altíssimo. Supremo mistério da fé cristã: O nascido da Virgem Maria é o Messias Salvador, por sua natureza, humano e divino.
A saudação inicial: “Ave, cheia de graça” significa ser Maria efetivamente “cumulada de graça”, porque o que nela se realiza não provém de seus méritos, é dom divino, fruto da suprema benevolência de Deus. Concebida sem pecado, ela torna-se Templo, Morada (shekinah) da glória de Deus, da qual nascerá Jesus (Yoshua, que significa “Yah é Salvador”), o Filho do Altíssimo, cujo “Reino não terá fim”.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m
        



       

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Reflexão do Evangelho de Mt 22, 1-14 Parábola das Bodas - Quinta-feira 21 de Agosto

Reflexão do Evangelho de Mt 22, 1-14 Parábola das Bodas
Quinta-feira 21 de Agosto
      
       Uma das mais belas imagens do céu nas Escrituras é o banquete ou a celebração das bodas dada pelo rei em honra de seu filho. Mas para participar dele há uma condição, a de ser livre diante dos bens materiais. É o que se deduz da resposta dada pelos convidados ao banquete, como atesta S. Cirilo de Alexandria: “Eles desdenharam o convite, porque estavam voltados para as coisas terrenas e tinham concentrado sua mente nas vãs distrações deste mundo”. Uns tem bois e mulheres, campos e outros afazeres que os impedem de ouvir o apelo do Senhor, cujo desejo é de que todos tenham disposição de espírito, abertura de coração e liberdade interior, expressos no desapego ou na pobreza em espírito. Os que estão presos aos seus bens e preocupações não participam da festa, ou como diz S. Agostinho, “os primeiros convidados foram reprovados devido a suas escusas. Por isso, venham os mendigos, já que quem convida é aquele que sendo rico se fez pobre por nós, para que os mendigos nos enriqueçam com a sua pobreza”.
       Na parábola contada por Jesus, dois elementos se destacam. O primeiro refere-se aos convidados originais para a festa, aos quais foram enviados convites com muita antecedência, com tempo suficiente para se prepararem. Torna-se assim justificável o desagrado do rei diante da recusa dos convidados, que, claramente, negavam dar-lhe a honra que lhe era devida.  Há nesta passagem uma alusão à atitude dos judeus, criticada por Jesus, embora transpareça no texto seu desejo de que, também eles, participem da alegria do Reino.   
O segundo elemento da parábola refere-se aos que, posteriormente, foram conduzidos ao banquete: maus e bons, pecadores e estrangeiros, recolhidos ao longo das estradas. Fruto da graça divina, o convite é para todos. No entanto, ele não deixa de ser um alerta tanto para os que o recusaram como para os que, aceitando-o, se aproximaram indignamente da festa. Se a graça é um dom gratuito, ela exige o compromisso de ter o coração aberto para Deus e de viver segundo sua Palavra. Atitude emblemática que coloca os discípulos a serviço de Deus e dos homens, a exemplo de Cristo que “sendo rico se fez pobre por nosso amor” (S. Paulo). Só então eles terão acesso ao banquete celestial.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.