sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Mt 22, 34-40 - O maior mandamento - Domingo 26 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Mt 22, 34-40 - O maior mandamento
Domingo 26 de Outubro

       Jesus nos fala da primazia do amor, o que leva Santo Agostinho a dizer que “todos os preceitos do amor são de tal natureza, que se o homem crê ter feito algo bom, mas sem caridade, ele totalmente se equivoca”. É a exigência de amar a Deus com toda a sua alma, com toda a sua mente, com toda a sua força. Orígenes reforça essa ideia: “Amar ao Senhor não só é o maior mandamento, mas também o primeiro de todos”.
Ao longo de todo o Novo Testamento, usando parábolas ou as próprias ações, Jesus dá diversas demonstrações de amor, compaixão, generosidade, misericórdia. Com isso, Ele quer nos mostrar a infinita capacidade de amar do Pai.
São Basílio Magno escreveu que da força do amor “emerge a morte às idolatrias do pecado. Na ordem do ser, ao orgulho e à vaidade, e, na ordem do ter, às posses materiais e honrarias”. É a renúncia aos falsos deuses que criamos ao longo da vida. É a aceitação de que as palavras de Jesus precisam se transformar em atos pessoais para que alcancemos o amor de Deus. E então, como já disse São João Crisóstomo, mergulhados no amor ao Pai, reconhecemos que a majestade de Deus se honra melhor com o serviço humilde ao próximo e não só com palavras. O Apóstolo São Paulo confirma que “a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).
O amor a Deus expressa-se no amor ao próximo. Com efeito, este sentimento nos invade de tal modo que é pelo próprio amor de Deus que amamos aos nossos semelhantes, sejam eles quem forem. Isso vale mais do que todos os sacrifícios praticados em seu nome. Para explicar a um doutor da Lei o que é ser próximo, Jesus conta a seguir, segundo o evangelho de S. Lucas, a parábola do bom samaritano. Ele fala de um homem ferido por assaltantes, que jaz no meio de uma estrada. Três passam por ele. Os dois primeiros mostram-se indiferentes e seguem adiante sem socorrê-lo. O terceiro, movido pela compaixão, cuida do agonizante com desvelo. E este homem de bom coração é justamente um samaritano, considerado pelos judeus como estrangeiro. Pergunta Jesus: “Qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”. O homem da Lei compreende o sentido da parábola e responde: “Aquele que usou de misericórdia com ele”. Jesus então lhe diz: “Vai, e faze tu o mesmo”.
Nossa capacidade de amar ao próximo está intimamente relacionada à nossa capacidade de amar a Deus. A propósito disso, escreveu Doroteu de Gaza: “Eis a natureza do amor: quando nos afastamos do centro e não amamos a Deus, igualmente nos afastamos do próximo. Mas, se amamos a Deus, quanto mais nos avizinhamos a Ele, por amor, tanto mais estaremos unidos ao próximo, no amor”. Viver esta união é formar um só corpo, ou, como prega São Paulo, “somos membros uns dos outros”. Único corpo, ilimitado, no qual o amor circula como uma espécie de sangue divino e humano. É a transcrição na humanidade da comunhão trinitária.
O ser humano, quando tocado por Jesus, jamais estará separado, isolado. Ele se santifica e cresce na comunhão com Deus, sem nunca estar separado de seus semelhantes. De fato, a oração e o amor integram as pessoas entre si e contribuem para que cada uma realize seu progresso espiritual. A meta que as impulsiona a crescer é a busca da felicidade ou, no dizer de S. Francisco de Assis, da alegria perfeita, fim último de suas diversas atividades. Efetiva-se assim a suave serenidade do amor a Deus e ao próximo.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

Reflexão do Evangelho de Lc 13, 1-9 - Convite à conversão - Sábado 25 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 13, 1-9 - Convite à conversão
Sábado 25 de Outubro
      
       Certa feita, vieram algumas pessoas contar a Jesus um dos incidentes ocorridos com seus ouvintes judeus. Um crime perpetrado por Pilatos. Tornava-se ainda mais grave pelo fato de ter-se dado no Templo, profanando o lugar sagrado de adoração a Deus. Jesus aproveita a ocasião para lançar um convite à conversão, pois resta ainda algum tempo, embora limitado, para “produzir dignos frutos de penitência”. Não se pode concluir que o episódio da morte dos galileus pressuponha o fato de eles serem pecadores. Todos são pecadores e são exortados a dar frutos de penitência. Nesse sentido, através da parábola da figueira estéril, Ele destaca que o “tempo da visita”, sua presença entre nós, é tempo de conversão. É preciso que não mais se esteja desprevenido, pois o tempo já praticamente passou. A resposta deve ser imediata e incondicional.
A figueira, diz Santo Agostinho, está significando o gênero humano, convocado por Jesus a uma vida nova, na comunhão com o Pai e no serviço despretensioso aos irmãos. Após três anos de cuidados e esmerada atenção, não encontrando nenhum fruto, o viticultor pensa em cortar a figueira. Há, no entanto, a intervenção de um homem compassivo, que, como escreve Santo Agostinho, “intercede junto a ele, para que cave ao redor e coloque adubo, o que indica paciência e humildade. Esperemos os frutos, pensa ele. Como, porém, só uma parte dará frutos, outra não, virá o dono e a dividirá. Que significa dividi-la? O fato de que há bons e maus, unidos no momento presente num único corpo”.   
       Na literatura bíblica, sentar-se à sombra de uma figueira era sinal de paz e de bem-estar físico e social. O fato de ela secar constituía para Israel símbolo temível de infelicidade e de sofrimento. S. Cirilo de Jerusalém lembra que, ao contar a parábola, Jesus “deseja que produzamos bons frutos para que não ocorra o que se deu com a figueira estéril, cortada e lançada fora”. Todos nós podemos ser árvore infrutífera, verdejante e no entanto inútil. Pessoas de muitas e belas palavras, mas sem frutos que mostrem uma atitude de paz e de fraternidade. É possível mudar ainda; e o Senhor nos oferece o perdão, dom gratuito e generoso, de modo a trilharmos o caminho que conduz ao Pai, produzindo frutos de amor e de misericórdia.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 54-59 - Discernir os sinais dos tempos - Sexta-feira 24 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 54-59 - Discernir os sinais dos tempos
Sexta-feira 24 de Outubro

              A presença de Jesus é sinal de uma realidade divina misteriosa, que causa admiração e deixa a multidão perplexa. Se suas palavras são tocantes e verdadeiras, elas evidenciam um novo tempo, apresentado como última chance oferecida à humanidade para aceder à salvação. Aliás, desde o início de sua vida pública, em sua pregação inaugural na sinagoga de Nazaré, Ele proclama um “ano de graça”, que permite passar de um conhecimento talvez abstrato de Deus a um encontro pessoal com Ele. Entretanto, urge discernir os sinais dos tempos, indícios da era messiânica, que, de modo surpreendente, no assim chamado mundo real, reflete lampejos da realidade divina. De maneira que no seu sim, no ato de fé, o homem pode atingir o vertiginoso nível do “faça-se”, do “fiat” de Deus na criação, e descobrir a luz que brilha por detrás de cada acontecimento pertinente a Jesus e à sua missão.   
Em suas primeiras palavras, Jesus exorta o povo à conversão: “arrependei-vos e crede no Evangelho”. Ele não apregoa um espiritualismo moralizante, mas convoca seus ouvintes à purificação (cathársis) ou à transformação total, em seu corpo, alma e espírito. No novo tempo instaurado por Ele, o apelo “arrependei-vos” expressa uma força interior capaz de envolver e renovar, e tornar novas criaturas os que o acolhem. É a vitória do bem sobre o mal, da luz sobre a escuridão, da graça sobre o pecado.
Muitos, porém, mostram-se indiferentes às suas palavras e não conseguem ver, para além do mundo das sombras, o mundo da luz e da verdade. Decepcionado, Jesus declara que eles são capazes de ler os sinais meteorológicos do tempo, no entanto, são incapazes de reconhecer em seus atos e palavras o verdadeiro Templo de que jorra a água viva (Jo 2,19). Jesus não é simplesmente objeto de fé, Ele é quem a revela, não no final da nossa caminhada, mas antes, durante a jornada do dia-a-dia.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 49-53 - Jesus diante de sua Paixão (sinal de contradição) - Quinta-feira 23 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 49-53 - Jesus diante de sua Paixão (sinal de contradição)
Quinta-feira 23 de Outubro
      
O sol surgia no horizonte. A cidade despertava. Parecendo romper as barreiras do mundo físico, a voz do Senhor soou forte: “Eu vim trazer fogo à terra, e como desejaria que já estivesse aceso!” Pasmos, os discípulos se perguntavam: Que fogo é esse? Certamente, não o fogo vingador ou o da Geena, mas aquele anunciado por S. João Batista, o fogo do batismo que confere nova vida. Dizia João: “Eis que virá quem vos batizará com o Espírito Santo e com fogo!” (Lc 3,16). “Esse fogo – comenta S. Cirilo de Alexandria - é a salvífica mensagem do Evangelho, é o poder dos ensinamentos do Messias. Poder que inflama a terra e conduz os homens a uma vida de piedade e de amor”. Com a sua vinda, qual fogo divino, brilhou a fé, a caridade iluminou a todos e resplandeceu a justiça. Palavras lembradas pelos Apóstolos, no dia de Pentecostes, quando receberam o Espírito Santo precisamente sob a forma de línguas de fogo.
Em forma de paráfrase ao texto bíblico, Orígenes escreve: “Quem está perto de mim, diz Jesus, está perto do fogo; quem está longe de mim está longe do Reino”. O fogo fala de proximidade a Cristo, provocando a alternativa: estar ou não nele, deixar-se queimar por Ele ou se excluir do Reino. 
       E no silêncio do amor, o Senhor, o Filho de Deus encarnado, nosso Salvador, espera por nossa decisão. Há os que não o acolhem, os fariseus e doutores da Lei, por não admitirem que o Messias anuncie o Evangelho do amor e da misericórdia, e abrace a cruz como caminho de salvação. Mas há os que estão abertos à sua pregação e seguem com todo empenho o itinerário da cruz e do serviço, o mesmo percorrido por Jesus até o Calvário. Realizam-se assim as palavras do velho profeta Simeão, dirigidas ao menino Jesus, declarando-o “sinal de contradição”, o que é lembrado pelo próprio Senhor, ao dizer: “Numa casa com cinco pessoas, estarão divididas três contra duas e duas contra três”.
 A vinda de Cristo, tempo de decisão, nos reenvia ao fim dos tempos, mas também ao hoje totalmente atual. A verdade da Palavra de Jesus é força purificadora e renovadora, que como uma espada penetra nossa condição de morte e de divisão, para tudo preencher de luz e de esperança. O que significa isso para nós? Porventura, está o nosso coração fechado à misericórdia e ao amor? Depende de nossa decisão. A opção por Jesus transfigura o intelecto, a força e o desejo, e nos torna sinal profético de solidariedade e de doação fraterna, pois o amor ao próximo resulta do amor a Jesus e a acolhida do pobre significa adesão de vida a Cristo, independente do grau de consciência daquele que o acolhe.   


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 39 – 48 -Vigiai, pois o Senhor não tarda a vir - Quarta-feira 22 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 39 – 48 -Vigiai, pois o Senhor não tarda a vir.
Quarta-feira 22 de Outubro
             
Deus nos ofereceu o maior e o mais belo tesouro: seu Reino de paz, de alegria e de justiça. Mas podemos perdê-lo se não estivermos vigilantes. O Evangelho de São Mateus deixa claro que ninguém, além do Pai, sabe o dia em que Jesus voltará para o Juízo Final. Assim como aconteceu nos tempos de Noé, acontecerá na vinda do Filho de Deus: “Nos dias que precederam o dilúvio, comiam, bebiam, casavam-se e se davam em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca”. Os homens não desconfiavam de nada, até que as águas do dilúvio vieram e levaram a todos.
O próprio Cristo adverte: “Assim acontecerá na vinda do Filho do Homem”. Orígenes, grande escritor do século III, aconselha os homens que se mantenham em vigília pela volta do Senhor tanto à tarde, à meia noite, ao canto do galo, quanto de madrugada. Trata-se de uma comparação com as diversas idades do homem, ou seja, devemos nos manter vigilantes na juventude, na meia-idade, na velhice e na mais avançada fase da vida. Afirma Orígenes: “Virá o Senhor ao que não deu sono aos seus olhos, nem descanso às suas pálpebras, e guardou o mandamento daquele que disse 'vigiai em todo tempo'”. Ocorrerá, então, a parusia, a volta de Jesus, em sua glória no tempo do Fim. Os que se prepararam, seguindo os seus ensinamentos, participarão da plenitude da sua alegria na glória do Pai. Mas agora, ao longo da jornada da vida, eles reconhecem que a alegria não dispensa a cruz, ela a compreende e é vivida por todos os que abraçam os sofrimentos de Jesus e se empenham em aliviar as dores e angústias de seus irmãos.
Jesus adverte a seus discípulos que nem os anjos do céu sabem quando será a volta do Senhor à Terra, e, ainda avisa: “Não vos pertence saber”. São João Crisóstomo vê nessas palavras o apelo do Senhor para que “cada um sempre o espere e sempre se empenhe” no serviço aos pobres e desvalidos.
A Tradição cristã chama o momento após a morte de julgamento pessoal, para distingui-lo do julgamento último, universal, embora também ele não deixe de ser pessoal. É necessário viver cada instante, intensamente, segundo a vontade do Pai, em comunhão com o outro, cuja alteridade permanece irreduzível. Então, a alma, incendiada pelo amor proveniente de Deus, é atraída à profundidade do mistério da Trindade e vive, no Espírito, a alegria da comunhão.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 35-38 - Prontidão para o retorno do Mestre - Terça-feira 21 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 35-38 - Prontidão para o retorno do Mestre
Terça-feira 21 de Outubro
      
       O eterno e o infinito adquirem semblante e voz humana no Filho de Deus, nascido de Maria. Ele, revelação plena de Deus, entra em nossa história e comunica o Evangelho do amor e da misericórdia, que nos permite fazer parte da única contemplação do Pai, feito nosso Pai, em seu Filho, que se fez nosso irmão. Em sua vida pública, Ele nos prepara espiritualmente para seu retorno em glória, no fim dos tempos.
Para melhor compreendê-lo, Ele conta a parábola do “retorno de um senhor” após a festa de núpcias. Felizes os que estavam preparados para recebê-lo. O mesmo acontecerá com a vinda do Filho do Homem, que virá quando menos se espera, e oferecerá àqueles que estiverem vigilantes seu Reino de paz e de justiça. Eles, porém, correm o risco de perdê-lo, caso não se preparem devidamente para a sua vinda ou, como diz o Evangelho, não tiverem “os rins cingidos e as lâmpadas acesas”.
A expressão trazer “lâmpadas acesas”, segundo S. Agostinho, significa manter-se vigilante mediante a prática das boas obras, e a cuidadosa instrução dada a Moisés e a Aarão, no tocante à Páscoa: “ter os rins cingidos”, significa conservar-se na disposição virtuosa de quem se orienta de acordo com a reta razão e não se deixa guiar pelos movimentos impetuosos das paixões. Nesse sentido, vigilância é compreendida como libertar-se do egoísmo e abrir-se ao amor a Deus e ao próximo, pelo que o “discípulo, conclui S. Agostinho, será recompensado, pois terá vencido o que a paixão sugeria e terá cumprido o que a caridade ordenava”.  
       O discurso escatológico de Jesus sobre a necessidade de vigiar culmina com uma exigência prática: colocar-se nos ternos e misericordiosos horizontes de Deus. Portanto, quem é vigilante deixa-se guiar pelo amor divino, que o coloca, como proclama S. Francisco de Assis, “no cumprimento da santíssima vontade do Pai”. Ele será, como “luz do mundo” e “sal da terra”, imensa reserva de silêncio, de paz e de verdadeira vida para toda a humanidade. Concretiza-se a criação boa e durável da história. Para os que não conheceram a luz cristã nesta vida, a salvação continua a ser presença do mistério da misericórdia divina. À luz da fé, nós cremos que, objetivamente, a humanidade inteira participa da luz da Transfiguração de Jesus, guardando sempre o pressuposto da liberdade e de uma vida iluminada e guiada por uma consciência reta e justa. Assim cada pessoa, conduzida pelo Espírito divino, é chamada a celebrar a vida e, no abismo da divina sabedoria, viver a vertigem do amor e da misericórdia.   


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

domingo, 19 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 13-21 - Não ajuntar tesouros - Segunda-feira 20 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 13-21 - Não ajuntar tesouros
Segunda-feira 20 de Outubro

       Certa feita, alguém da multidão pede que Jesus seja o mediador na questão de herança entre ele e seu irmão. Embora recuse o pedido, Jesus não deixa de aproveitar a ocasião para elevar o espírito de seus interlocutores e fazê-los passar dos interesses temporais ao “tesouro” eterno no Reino dos céus. Após alertar contra a excessiva preocupação com os bens deste mundo, ele lhes recomenda: “Precavei-vos cuidadosamente de qualquer cupidez, pois, mesmo na abundância, a vida do homem não é assegurada por seus bens”.
Para ilustrar o seu pensamento, Jesus conta a parábola do rico, cuja terra tinha produzido muitos frutos. “Ele, então, refletia: Que hei de fazer? Não tenho onde guardar minha colheita”. Após construir celeiros maiores, diz: “agora, repousa, come, bebe, regala-te”. E Jesus encerra a parábola com as palavras: “Insensato, nessa mesma noite ser-te-á reclamada a alma. E as coisas que acumulaste, de quem serão?” E, voltando-se para seus ouvintes, conclui: “Assim, acontece àquele que ajunta tesouros para si mesmo, e não é rico para Deus”.
         Suas palavras valem não só para os que disputam a herança, mas também para os demais ouvintes. Todos são exortados a se afastarem da avareza, considerada como egoísmo e idolatria, e a se deixarem guiar por uma real atitude de confiança em Deus, que nos torna livres para dispor generosamente de nossos bens e solidificar nossa convivência fraterna. 
       A alternativa não é entre a pobreza e a riqueza, mas entre a realização terrestre, temporária, e a plenitude celeste, eterna. De um lado, a avareza, fechada sobre si mesma, estéril, e de antemão condenada por uma morte inevitável; de outro lado, a generosidade que distribui aos outros, mais pobres, o que se recebeu da liberalidade do Criador e da natureza. Por isso, diante das palavras do rico que dizia: “Vou demolir meus celeiros, construir maiores, e lá hei de recolher todo o meu trigo e os meus bens”, S. Agostinho declara com ênfase: “o estômago do pobre é o depósito mais seguro para os grãos recolhidos”. 
       S. Basílio Magno, referindo-se a este texto, destaca que Jesus “queria conduzir o espírito do homem à generosidade para com os pobres. Toma consciência, ó homem! Quem é esse que dá? Lembra-te de ti mesmo: Quem és tu? Do que és responsável? De quem o recebeste? Por que tens recebido muito mais do que muitos outros? Tu te tornaste ministro do Deus todo bondoso para administrar em favor de teus coirmãos. O que tens em tuas mãos, tu deves considerar como não te pertencendo. Por um pouco de tempo tu gozas destes bens, depois eles passam, e te pedirão contas deles. ‘Dizes tu: que farei eu?’ É necessário dizer: ‘Eu saciarei a alma do pobre, eu abrirei meus celeiros, convidarei todos os infelizes’. Lançarei este apelo magnífico: Vós que não tendes pão, vinde a mim! Que cada um tome sua parte, como de uma fonte que pertence a todos, pois são bens dados por Deus!”


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.