segunda-feira, 2 de março de 2015

Reflexão do Evangelho - Terça-feira 03 de Março

Reflexão do Evangelho
Mt 23, 1-12 -  Hipocrisia e vaidade dos fariseus
Terça-feira 03 de Março

       Não tendo em vista louvar a Deus, mas serem reconhecidos e exaltados pelo povo, os fariseus mostram-se cumpridores do ideal do judeu observante. Anima-os a vaidade de aparecer e, por agirem em desacordo com o que pregam, são denominados hipócritas. Seguem a letra da Lei, não o seu espírito. Por isso, diante dos ensinamentos de Jesus, que refletem simplicidade e um modo compreensivo de interpretar a Lei, eles o rechaçam e se desviam da reta compreensão de suas palavras. Mas mesmo criticado por eles, Jesus não recua. Sem resvalar em uma religião do “ópio”, que amorteceria o sofrimento e a humilhação dos pequenos com falsas promessas, seu desejo é libertar seus seguidores da visão de um Deus “déspota”, que escraviza e tolhe a alegria da vida.
       Os herodianos, saduceus e escribas já tinham sido confundidos, agora, é a vez dos fariseus, tradicionalistas rigorosos e intérpretes das mínimas prescrições da Lei. Diz-lhes Jesus: “Ai de vós, fariseus, sábios e guias espirituais! Hipócritas!” A multidão e os discípulos escutavam o Mestre, com prazer. Ele alertava seus ouvintes do duplo perigo da vaidade e da falsa piedade. Opunha-se diretamente ao farisaísmo histórico, mas também não esquecia os que alimentavam uma sabedoria orgulhosa e um idealismo altivo. Com ênfase, Ele apregoa, com simplicidade e humildade, que tudo vem de Deus, fonte da verdade que liberta e à qual, todos são chamados a viver. Não existe mais espaço para o casuísmo, tampouco para os pesados fardos impostos pelos fariseus.
         A voz do Senhor, mais afiada do que uma espada, torna-se então um vivo apelo à conversão (metánoia) e à vivência interior da fé e da caridade, pois urge passar do pecado à virtude, do erro à verdade. E traduzindo a Lei, Ele proclama: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”. Muitos se convertem e, guiados pelo poder invencível da graça, dão uma nova orientação à vida: deixam de estar voltados para si mesmos, em busca de glórias humanas, para trilhar o caminho da fé e da liberdade no amor a Deus.  

Mas, alerta Jesus, a fé só é autêntica quando passa do coração às mãos e é vivida na prática do bem e da caridade. O autor alexandrino, Orígenes, referindo-se às palavras dirigidas a Moisés, citadas pelos fariseus, insiste: “Os verdadeiros discípulos de Jesus ligam a Lei de Deus à mão, no sentido espiritual, pela prática das boas obras. Jamais fazem dos mandamentos penduricalhos diante dos olhos de sua alma”. Não como os fariseus que escreviam o Decálogo da Lei em finos pergaminhos, e os levavam dobrados e atados em suas frontes, sob a forma de uma coroa. Pois tendo sempre os mandamentos diante dos olhos, eles julgavam cumpridas as Palavras do Senhor.

domingo, 1 de março de 2015

Reflexão do Evangelho - Segunda-feira 02 de Março

Reflexão do Evangelho
Lc 6, 36-38 - Misericórdia e gratuidade
Segunda-feira 02 de Março

       O seguidor de Jesus compreende que aceitar a salvação é transformar a morte e todas as formas de morte em passagem para a vida. Por isso, deixando-se iluminar por Cristo, ele não mais vaga na incerteza de sua sorte ou na timidez de um destino desconhecido, mas na experiência da compaixão divina, ele canta, com S. Francisco de Assis, glórias e louvores ao “grande e magnífico Deus”.
O homem não inventa Deus para consolar-se, ele reconhece que sua vida espiritual provém do alto e que, em cada momento, ele vive a surpresa do filho pródigo no seu encontro com o pai. O Pai o acolhe, dispõe-se a dar sem esperar recompensas e conceder o que tem sem exigir retribuição.  
Dessa maneira, Jesus preparava os Apóstolos para enviá-los em missão, a fim de anunciar a todos o Evangelho do amor e da misericórdia. Eles deviam levar a todos, particularmente, aos que estavam cansados e prostrados como ovelhas abandonadas pelo pastor, o consolo divino e a cura da alma e do corpo. Peregrinos, desapegados de tudo, eles não hão de ter como meta bens ou riquezas materiais, mas livres e sem preocupações, serão como os pássaros do céu. No entanto, a missão deles não será fácil, muitos os acolherão, outros serão seus adversários e até mesmo perseguidores. Para consolá-los e fortalecê-los, o Senhor lhes diz: Eu estarei sempre convosco; chamo-vos amigos e não servos. 

Também nós, incluídos no mistério de Cristo, sentimo-nos envolvidos pelo carinho acolhedor e amoroso do Pai, expressão de nossa filiação eterna, e ouvimos no silêncio da alma as palavras do Senhor: “Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso”. Assim, imersos num oceano de luz e de paz, somos conduzidos, pelo Filho, à intimidade de vida com o Pai. Nada é exigido, a não ser amar o Pai, que nos acolhe em sua misericordiosa benevolência e que nos torna, ao mesmo tempo, acolhida ilimitada do próximo. O rosto amoroso do Pai nos ensina que amar é mais do que dar. Sublime experiência que nos permite superar toda divisão e conflito, e sermos compassivos e prontos a dar e a perdoar a todos. Por isso, conclui Jesus: “Perdoai e vos será perdoado; dai e vos será dado”.  

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Reflexão do Evangelho - Domingo 01 de Março

Reflexão do Evangelho
Mc 9, 2-10 - Transfiguração do Senhor
Domingo 01 de Março
      
        A fonte de inspiração e a referência essencial de nossa vida cristã é a nossa solidariedade com Jesus, melhor, a inclusão nele de nossa humanidade regenerada. Nossa vida, morte, dor e sofrimento estão incluídos na obra redentora de Jesus, pela qual somos reconciliados com o Pai. Sua ressureição é a vitória definitiva do primeiro de todos os homens e primícias de todos os outros. É o triunfo final da Verdade e do Bem, presentes em Jesus de Nazaré.
Mas a luz de sua glória ilumina não só o futuro; o cristão torna-se presença do Ressuscitado, pois, na humanidade de Cristo, transparece o que cada ser humano pode e deve se tornar. Assim, na transfiguração, evidencia-se a certeza de que o homem, caído em Adão, reergue-se em Jesus e participa, desde já, da verdadeira vida, da vida eterna. A única exigência é compreender o benefício de crer sem ter visto.  
   No alto da montanha, contemplando a face do Cristo transfigurado, os Apóstolos sentem-se inebriados, e, pasmos, desejam perpetuar aquele momento: “Façamos três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”.  Emocionados, veem Jesus falando com Moisés, o grande legislador de Israel, e com Elias, o maior dos profetas. Partilham da glória de Cristo. De fato, no contato com os Apóstolos, a humanidade de Jesus, longe de se evaporar na glória celeste, permite-lhes contemplar a luz eterna de sua divindade e compreender que, em sua vitória, o ser humano é chamado a se reerguer, pois desde agora, misteriosamente, ele já é vencedor. No Messias humilhado e sofredor da cruz, também nós, não deixamos de contemplar o Filho do Homem, que nos conduz ao Reino misericordioso do Pai.
Realidade consoladora e reconfortante, que leva o Apóstolo Pedro a exclamar: “Rabi, é bom estarmos aqui”. Experiência de união mística com Deus. Mais tarde, extasiado, S. Gregório Palamas confessa: “Se o corpo deve tomar parte, com a alma, dos bens inefáveis no século futuro, é certo que também deles deve participar, na medida do possível, desde já”.

Em suma, a transfiguração de Jesus assegura-nos a manifestação final das Primícias, quando Deus será tudo em todos. Pela misericórdia divina, os corpos dos bem-aventurados, na medida de sua fé e de suas obras, de sua esperança e de sua caridade, tornar-se-ão semelhantes ao corpo glorioso do Senhor. Lá, no alto do monte Tabor, engalanado de luz, Jesus prenuncia o nosso estado glorioso no céu, onde o brilho da alma, na comunhão com Deus, tornará nossos corpos ressuscitados “gloriosos”, livres dos incômodos terrestres e participantes da glória de Deus. Realizam-se as palavras do Apóstolo: “Cristo em vós, esperança da Glória” (Col 1,27).

Reflexão do Evangelho - Sábado 28 de Fevereiro

Reflexão do Evangelho
Mt 5, 43-48 - Amor aos inimigos
Sábado 28 de Fevereiro
      
Oculto em sua humanidade, o Filho de Deus não só se dá a conhecer como “suprema epifania” do amor incomensurável de Deus, mas também nos inclui em sua vida humano-divina. Nele, amamos a Deus e, no mesmo amor concedido a nós por Ele, amamos o próximo. Eis a chave da nossa esperança, com a qual abrimos a porta do nosso coração para entrever o novo horizonte do povo de Israel, renovado por Jesus. Sem negar a afetividade (éros), força natural para o bem, vivemos o amor-doação (ágape), que confere asas à alma e a eleva ao belo e ao desejo da felicidade eterna. Com efeito, a comunhão em Deus, além de superar todas as fronteiras de raça e de preconceitos, torna o éros, força presente no coração humano, e o amor divino (ágape), conaturais à condição humana.
         Por isso, sem qualquer receio, os primeiros cristãos proclamam a total compatibilidade do eros e do ágape, colocando-os no interior do mistério da salvação. Em outras palavras, embora não deixem de assinalar a degeneração do eros em práticas religiosas ou cultos idolátricos, não para negá-lo, mas para propor a sua purificação, eles acentuam a unidade do amor presente na criação e na história da salvação. Nesse sentido, grande foi o mérito de Orígenes, que destaca, na interpretação do Cântico dos Cânticos, a acepção mística e espiritual do eros, ao estabelecer as relações Logos-alma, Cristo-Igreja. A mesma unidade encontra-se no pseudo Dionísio Areopagita, ao referir-se à Bondade e à Beleza: “O que é Belo e Bom, diz ele, é desejável (erastón), apetecível e amável (agapetón)”.

A visão unitária do amor exige que se viva a comunhão com os membros da família ou da própria raça, mas também com todos os homens, mesmo, com os próprios inimigos. O amor, fogo do céu, reduz às cinzas o pecado e transporta o homem, para além da fé e da esperança, que hão de passar, ao sabor espiritual do amor divino: amor não possessivo, impregnado de respeito e de afeto desinteressado. Realizam-se então as palavras de Jesus: “amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”. Se do ponto de vista meramente humano, alguém julgasse ser impossível efetivar semelhante amor, julgando-o inacessível, diríamos: o amor não provém apenas do alto, sem vínculos com a realidade humana, pois o eros, amor do homem ao bem e à beleza não se separa do ágape, do amor salvador de Deus, que é o nosso Criador. Por consequência, no encontro com nossos irmãos, nós não vemos o mal que o outro nos faz, mas sim o mal presente em sua vida, prejudicando-o e afastando-o de Deus. E na prática do bem, esforçamo-nos para que ele se volte para o Senhor e caminhe de acordo com os divinos ensinamentos. Nós os amamos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Reflexão do Evangelho - Sexta-feira 27 de Fevereiro

Reflexão do Evangelho
Mt 5, 20-26 - A nova justiça é superior à antiga
Sexta-feira 27 de Fevereiro

Na cultura da época, a punição era dura e por vezes mais pesada do que a infração. Jesus situa-se em outra ordem e estabelece princípios, que inspiram os filhos de Deus a vencer o mal pelo bem e amar os próprios inimigos. Às proibições, Jesus antepõe a virtude do amor fraterno. Por isso, de modo enfático, Ele proclama: “Não matarás, aquele que matar terá de responder em juízo”. Para o Senhor, é impensável tirar, de modo voluntário, a vida de alguém, primariamente, pelo fato de ele estar agindo contra o próprio Deus, “à imagem e semelhança do qual” todo ser humano foi criado. S. Gregório de Nissa dirá que o ser humano é “imagem viva de Deus”, não apenas enquanto ser espiritual, mas também em seu ser corpóreo. No seu todo, como ser único e indiviso, o homem é um retrato de Deus, de modo que, através de sua grandeza e dignidade, refletida de modo pleno em Jesus Cristo, pode-se entrever a face humana de Deus. Criado por Deus, o homem é conduzido, por uma ação paciente e constante, a assemelhar-se Àquele à imagem do qual ele foi criado, isto é, o Filho de Deus feito homem,  nas palavras de S. Irineu. O homem, então, é impelido a elevar o seu pensar e o seu agir à beleza e à harmonia do mistério da vida, cuja grandeza está em assumir a responsabilidade e o verdadeiro amor a si e ao próximo.
       Consequentemente, o ato de matar não é só um ato contra a dignidade da pessoa humana. Quem mata é movido pelo desejo de “apoderar-se do que é de Deus, sem Deus”, destruindo a fraternidade humana, realidade valiosa, porta de entrada da graça divina. Quem o faz, abala as bases da vida humana em sociedade. O pecado não é exacerbado, mas é situado no plano primário de Deus, que consiste em restaurar o homem e levá-lo à comunhão fraterna. O amor, a paciência e o perdão, dons divinos, dilatam o seu coração e ele passa a compreender, em seu íntimo, que mesmo “quem se encolerizar contra o seu irmão, terá de responder em juízo” (v.22).
       Para além do crime e do castigo, o olhar de Jesus alcança a intenção oculta no coração humano, sede do pecado que, semelhante a uma semente, cresce e se desenvolve, pouco a pouco, a menos que não seja superado e destruído pela graça de Deus, fogo divino, que penetrando o seu coração purifica-o de seus vícios e estabelece a vitória do amor e da força vivificante de Deus. É o próprio Mestre que, de modo direto e compassivo, nos conduz à fonte originária da vida cristã, a caridade.

A todos, Jesus concede o antídoto contra o pecado: a misericórdia, a bondade e a paciência, nascidas de um coração pleno de amor e de perdão. O contrário, tirar a vida de alguém ou se encolerizar contra um irmão, torna-se inimaginável. S. Agostinho dirá: “Vivamos o amor e façamos o que quiser”. Pois quem ama jamais ofenderá o irmão e não deixará de corresponder às exigências do Evangelho. S. João Crisóstomo exclama: “Ó admirável bondade de Deus! Ó amor, que vai além de nossos pensamentos! Ele descuida da honra que lhe é devida, para salvar a caridade que devemos ter para com o próximo. Ele mostra que as advertências, apenas pronunciadas, não se originam da aversão e muito menos do desejo de punir, mas do imenso amor que Ele nutre pelos homens”. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Reflexão Evangelho - Quinta-feira 26 de Fevereiro

Reflexão Evangelho
Mt 7, 7-12 - Confiar no Pai - Pedi e vos será dado
Quinta-feira 26 de Fevereiro

       A própria angústia do homem, suscitada pela certeza de sua morte, exprime seu desejo de felicidade e de superação. S. Irineu exclama: “Uma vida sem eternidade é indigna do nome de vida. Verdadeira é unicamente a vida eterna”. Voz de um mártir, do início do século 3º, que percorreu o caminho trilhado por Cristo! Como cristão, ele se reconhece incluído em Cristo, experiência vivida por toda a humanidade regenerada, que vislumbra sua vida nos horizontes da feliz eternidade de Deus. Entre Cristo e nós há bem mais do que uma simples solidariedade natural, pois Ele não é um em oposição a nós, nem um entre nós; nós fomos incluídos em sua vida e em seu corpo nós nos encontramos.
        O curso de nossa vida não se define pelos acontecimentos narrados pelos historiadores, ele resulta de uma luta espiritual decisiva, que perpassa silenciosamente o interior da história e nos permite alcançar o sentido eterno de nossa esperança. Esperança consolidada pela fé em Cristo, que assumiu um corpo próprio e fez-se parte da nossa história. Incluídos, de modo real, nele, a sua prece torna-se nossa prece, e o Pai não deixa jamais de atender-nos, pois o próprio Jesus nos diz: “Eu e o Pai somos um só”.
        Por Cristo e nele, nossa prece se eleva e é depositada nos braços daquele que nos afaga em sua bondade misericordiosa. Nesse contexto, Jesus conta a parábola do amigo importuno, que é atendido graças à sua perseverante insistência: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis, batei e vos será aberto”. Na atitude filial para com o Pai, sentimos nosso coração bater a compasso com o seu carinho dadivoso, o que leva S. João Crisóstomo a afirmar: “O Senhor não simplesmente ordena pedir, mas quer que as nossas preces sejam fervorosas e perseverantes: eis o sentido da palavra ‘buscai’”. Dissipam-se as dúvidas e incertezas, ouvem-se então as palavras de Jesus: “pedi”, “buscai”, “batei” e sereis atendidos. A misericórdia do divino Mestre não tem limite. A incredulidade cede lugar à serenidade, e “aquele que se desespera se dá a si mesmo a morte”, diz S. João Clímaco.

 Sem hesitação e movidos pela fé, batemos à porta do Pai e dele nos aproximamos. Há uma inversão, que nos deixa pasmos: a expectativa não é nossa, mas sim do próprio Deus, que aguarda nossa resposta. Com S. Agostinho exclamamos: “Cada um se examine e dê graças ao doador de todo o bem. Rende-lhe graças, sem deixar de suplicar o que ainda não lhe foi outorgado. Nós nos enriquecemos recebendo, Ele não se empobrece dando”. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Reflexão do Evangelho - Quarta-feira 25 de Fevereiro

Reflexão do Evangelho
Lc 11, 29-32 - O sinal de Jonas
Quarta-feira 25 de Fevereiro

         Por que as palavras de Jesus causavam estranheza às autoridades da época? Ele acabara de falar do amor a Deus e aos homens, mais importante do que as múltiplas tradições e prescrições humanas. A ira deles aumentava a cada momento, mas Jesus não se deixa intimidar, com firmeza e serenidade, Ele declara ser presença do amor benevolente do Pai. Os escribas e fariseus, em sua incredulidade, não confiam em suas palavras e revelam certa aversão, que bem pode refletir uma ponta de inveja, porque até então eles se tinham como único padrão e critério da verdade e da ortodoxia. Não obstante isso, eles lhe pedem um sinal do alto.
A resposta de Jesus, calma e desafiadora, remete-os ao profeta Jonas, que Ele apresenta como figura de sua morte e ressurreição. O povo de Nínive, descrito em seu processo de penitência e conversão, simboliza o novo Povo de Deus, instituído por Ele. Mas inebriados pelo orgulho e pelo sentimento de superioridade, eles não conseguem entendê-lo e alguns chegam a afirmar que as palavras e sinais realizados por Ele eram obras do demônio. A resposta de Jesus é imediata. Com palavras duras e severas, Ele os compara a uma geração adúltera e perversa. A ira deles aumenta ainda mais, mas Jesus, sem se alterar, continua a anunciar a vitória da graça divina.
Contudo, o poder de Jesus é o poder do amor, e o amor respeita a liberdade do outro. Sem reconhecer a Verdade de Deus, presente junto a eles, fariseus e escribas não creem em suas palavras e se afastam com ares ameaçadores. Outros creem em suas palavras e se estreitam em torno dele. Estes eram guiados pela liberdade da fé, que descerra a cegueira interior do coração e permite contemplar, refletida nas Palavras do Mestre, a grandeza da misericórdia divina. Da mesma forma que o povo de Nínive, diante da pregação de Jonas, orienta-se para Deus, também eles entregam-se à Palavra de Jesus, que os exorta à penitência e ao arrependimento. Ao invés, assim como João Batista foi rejeitado, também agora os fariseus e escribas não acolhem os sinais realizados pelo Messias, o Ungido de Deus, e recusam a sua mensagem.

       Escreve S. Pedro Crisólogo: “A fuga do profeta Jonas é figura do próprio Senhor. O terrível naufrágio simboliza sua morte e ressurreição. Aos judeus que pediam um sinal, Ele decidiu dar um único sinal, para que eles soubessem que a glória messiânica é transferida às nações, a todos os povos. Portanto, com toda justiça, conclui Jesus, os ninivitas hão de se levantar no dia do Julgamento e condená-los, pois eles fizeram penitência por força da pregação de um único profeta. E esse profeta era um náufrago, um estrangeiro, um desconhecido”. No presente momento, urge corresponder à Palavra de Jesus, que, segundo Orígenes, “oferece não dons corruptíveis como o ouro ou os aromas, mas sim o perfume espiritual da fé, o suor da virtude e o sangue do martírio”.