terça-feira, 30 de junho de 2015

Reflexão do Evangelho - Quinta-feira 02 de Julho

Reflexão do Evangelho
Mt 9,1-8 - Cura do paralítico e perdão dos pecados
Quinta-feira 02 de Julho

       Mais uma vez, Jesus chega à sua cidade, onde lhe “trouxeram um paralítico, deitado num catre”. Os que o rodeiam esperam que ele seja curado. Comenta S. Hilário de Poitiers: “É necessário examinar atentamente as palavras da cura. Ao paralítico não é dito imediatamente: sê curado ou levanta-te e caminha, mas: ‘tem ânimo, meu filho; os teus pecados te são perdoados’”. A cena faz-nos sentir o palpitar do coração amoroso do Senhor. Os gestos e as palavras refletem seu carinho por aquele homem e nos permitem reconhecer o consolo e refrigério de todas as pessoas que, na dor e na angústia, abrem-se à liberdade de um amor profundo e gracioso. Jesus não impõe uma norma, mas ao perdoar, revela-lhe a força interior de uma vida voltada à gratuidade do amor. “Não tenhas medo; tem somente fé”, repetia constantemente aos que curava. Pela fé, o paralítico, que tinha sido curado em seu coração, é curado em seu corpo. A distância entre a falta e o perdão incondicional, sem restrição, é preenchido pelo amor, que torna o perdão, concedido pelo Senhor, libertador. Seu perdão não é normativo, nem normatizante, e aquele que é perdoado reconhece que ele vale mais que seus atos.   
Portanto, o que é admirável não é o milagre, o inaudito, que Jesus designa como sinal de sua missão, é o poder de remeter os pecados. Poder tão divino, que a “multidão ficou com medo e glorificou a Deus”. A única condição exigida é crer, pois é na pureza da fé que se revela a grandeza do seu amor para conosco. Aliás, é com frequência que Ele fala da íntima relação entre fé e milagre, entre fé e remissão dos pecados. Os primeiros cristãos experimentam essa ação benevolente do Senhor, que os toca, sem nada exigir, sem de nada apoderar-se, e compreendem que a fé não só está voltada para os acontecimentos salvadores do passado, mas orienta-se também para o futuro, para o poder salvador do Ressuscitado. Ela é confiança inabalável na infinita misericórdia de Deus.  

        A presença silenciosa, serena, sóbria e vigorosa de Jesus, na disposição de servir a todos, envolve seus discípulos e lhes permite ouvir: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Assim como o paralítico, também eles, perdoados, são fortalecidos no corpo e na alma, e as últimas palavras do Senhor: “levanta-te, toma teu catre e vai para casa”, qual bálsamo divino, os encorajam e os levam a experimentar a possibilidade ou, melhor, a exigência de servir o próximo. 

Reflexão do Evangelho - Quarta-feira 01 de Julho

Reflexão do Evangelho
Mt 8, 28-34 - A cura dos endemoninhados gadarenos
Quarta-feira 01 de Julho
      
       A simples presença de Jesus perturbava e irritava os endemoninhados, que reclamavam o direito de agir livremente nas regiões da Decápole.  Situada do outro lado do mar da Galileia, ela era uma das cidades habitadas por gregos, sob a jurisdição da província da Síria. Ao ver Jesus, eles puseram-se a gritar: “Que existe entre nós e ti, Filho de Deus? ” Impressionadas, as multidões sentem um medo sagrado diante do poder sobrenatural, que irradia de sua presença e marca sua vitória contra o reino do mal, onde imperam a luta e a divisão. Jesus comunica harmonia, unidade, amor. 
Mas eis que se aproxima dele um homem possuído pelo demônio, descrito como possuidor de grande força: “Ninguém podia dominá-lo, nem mesmo com correntes”. Porém para surpresa de todos, vendo Jesus, ele se prostra e, sem resistência, declara conhecer a sua identidade de Filho do Deus altíssimo. Com uma única palavra, Ele liberta aquele homem dos poderes obscuros que o dominavam, e manifesta o caráter triunfal de sua missão. Comenta S. Jerônimo: “Jesus o expulsa. É como se Ele dissesse: sai de minha casa, que fazes em minha morada? Eu desejo entrar: ‘Sai deste homem’. Sai deste homem; abandona esta morada preparada para mim. O Senhor deseja sua casa: sai deste homem”. Vendo-o livre, os gadarenos enchem-se de temor (phobos), a ponto de pedir-lhe “que se afastasse do seu território“.

Essa cena recorda a ação misericordiosa do Senhor, que veio atrás da “ovelha desgarrada” ou, no dizer de S. Irineu, “que veio até à profundidade da terra”. Por outro lado, a figura do demônio, pedindo para ser mandado “aos porcos, a fim de entrar neles”, denota a aversão dos judeus aos porcos e deixa entrever certos laivos de ironia: os espíritos “imundos” entrando nos imundos porcos. Após a cura, o homem permanece “sentado, vestido e em são juízo”, mas ao perceber que Jesus se retirava, faz menção de acompanhá-lo. Jesus, porém, despede-o e ordena que ele volte para sua casa, como presença silenciosa da cura e do anúncio da misericórdia de Deus. 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Reflexão do Evangelho - Terça-feira 30 de Junho

Reflexão do Evangelho
Mt 8, 23-27 - Tempestade acalmada
Terça-feira 30 de Junho

        Ventos e águas revoltas. No meio do lago, lá pela hora do crepúsculo, encontram-se Jesus e os discípulos numa barca, sacudida pelo vento, que fazem as ondas despencarem sobre eles. Os apóstolos, marinheiros de profissão, pressentem o perigo. Na popa, tomado pelo cansaço, Jesus dormia. Mas, a agitação das águas e o choque do barco contra as ondas não o perturbam. Apavorados, eles clamam pelo Mestre, que intrépido, de pé, coloca-se ante o vento e o mar, e grita: “Silêncio! Cala-te! ” À diferença do salmista ou de Jonas, que invocam o auxílio de Deus, Jesus age por Ele mesmo, o que suscita a exclamação dos Apóstolos: “Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem? ” Três séculos mais tarde, S. Atanásio declara: “Aquele que ordenou ao mar não era uma criatura, mas sim o Criador”.
       Desde os primeiros séculos, os cristãos leem neste milagre a figura da Igreja. A tempestade e as ondas em reboliço lembram a violência da morte do Senhor e as turbulências pelas quais a Igreja há de passar ao longo de sua história. Mas, a exemplo dos Apóstolos, ela confia no Senhor, que lhe trará paz e bonança. Diz Orígenes: “Todos vós que navegais na barca da fé, todos vós que passais através das ondas deste mundo na barca da Igreja santa com Cristo, embora Ele durma em piedoso descanso, vigiam vossa paciência e perseverança. Com ardor, aproximai-vos dele, insistindo com orações”.
Jesus dorme. Seu silêncio fala da constante e serena presença daquele que tudo pode, ainda que por vezes, pareça não estar atento às necessidades e perigos dos que nele esperam. Observa S. Agostinho: “Se naufragas, é porque Cristo dormiu em ti. Esqueceste o Cristo. Desperta o Senhor e traze-o à memória. Despertar Jesus é pensar nele. Nasce a tentação, eis o vento; perturbação que te vem, eis as ondas. Desperta Cristo e Ele falará contigo e tu exclamarás: ‘Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem! ’”

       Logo a tempestade cessou completamente. Pasmos, mas fortalecidos interiormente, os Apóstolos ressurgem para uma vida de comunhão com Cristo, que os conduz a ter confiança inabalável em Deus. Dia após dia, eles crescem na sublime experiência do amor divino e entregam-se a Jesus, numa alegria indizível. Nos umbrais do mistério, deles, afasta-se o temor e, em Jesus, eles se reconhecem filhos amados do Altíssimo.

sábado, 27 de junho de 2015

Reflexão do Evangelho - Segunda-feira 29 de Junho

Reflexão do Evangelho
Mt 8, 18-22 - Exigências da vocação apostólica
Segunda-feira 29 de Junho
      
Fascinados, muitos ouviam Jesus falar do triunfo de Deus sobre o reino das trevas, do pecado e do mal. Inclusive, os fariseus e os escribas, que com grande respeito o chamavam de Rabi, Mestre. Criou-se assim ao seu redor um clima de alegria e de amor. Impressionava-os seu modo compassivo e misericordioso para com os fracos e pecadores, e o rigor exigido dos discípulos e seguidores. A estes, Ele lançava um forte apelo para livrá-los do comodismo e levá-los a acolher o poder misericordioso de Deus. Mas com os hipócritas e vendilhões do Templo, Ele era duro e, por vezes, até irônico: “Coam um mosquito e engolem um camelo”. Porém, a simplicidade e a serenidade não o abandonavam o que permite Goethe dizer: “Todos os quatro Evangelhos transmitem um reflexo daquela grandeza espiritual, cuja fonte foi a própria pessoa do Cristo, ápice espiritual mais divino do que qualquer outra coisa no mundo”.
 Certa feita, um dos discípulos, que lhe pede para primeiro enterrar seu pai, é surpreendido com as palavras: “segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus mortos”. Seu intuito é transmitir aos ouvintes o conteúdo principal da sua mensagem, que pressupõe não desprezo aos parentes, mas ter, em meio às adversidades, os olhos voltados para o alto. Observa S. João Crisóstomo: “Cristo faz tal proibição não para que rejeitemos a honra devida a quem nos gerou, mas para indicar que não há nada mais importante para nós do que as realidades do céu. Por elas devemos nos interessar, com todo o fervor e empenho, sem afastar-nos delas um só instante, ainda que sejam graves e urgentes os motivos que nos levam a estar distantes de Jesus”.

Por conseguinte, a proposta de Jesus é que os discípulos participem de sua vida simples, pobre e humilde, e tenham a convicção de que seus ensinamentos não são puros conceitos e ideias, mas expressam e consolidam o encontro deles com o Pai. Indica-lhes um itinerário a ser seguido: das realidades transitórias e terrenas às realidades eternas e espirituais. Verdadeiro programa de vida, que evidencia a necessidade de trilhar o caminho da renúncia, sem a qual jamais se poderá alcançar a libertação das paixões desregradas e o afastamento de todo o mal. Calam-se, no interior do coração deles, as vozes do vício e de todo mau desejo, e eles ouvem, no silêncio do amor, a voz do Mestre, guiando-os à união com o Pai celestial.  Orígenes coloca nos lábios de Jesus a recomendação: “Mortificai o que em vós atrai para a terra, lançai de vós toda ligação com a corrupção da carne, todo mal”. Livre e sereno, o discípulo é feliz pela contemplação da divina beleza e percebe que a misericórdia, presente em Jesus, é a única força capaz de vencer o pecado e os ídolos do mal. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Reflexão do Evangelho - Domingo 28 de Junho

Reflexão do Evangelho
Mt 16, 13-19 - Confissão de São Pedro
Domingo 28 de Junho

       Na bela cidade de Cesareia, reedificada pelo tetrarca Felipe no ano 3-2 a.C, desejando formar e constituir o novo povo de Deus, Jesus interroga seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou? ” A opinião popular identificava-o com um dos profetas do passado. “Responderam-lhe: uns afirmam que és João Batista, outros que és Elias, outros, ainda, que és Jeremias ou um dos profetas”. Voltando-se para os Apóstolos, Ele pergunta: “E vós quem dizeis que eu sou? ” Eles pressentem, diz S. Hilário, que, “para além do que se via nele, havia algo mais”. A resposta decisiva e imediata, não fundada em premissas puramente humanas, é dada por Pedro, em nome de todos: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Momento solene e revelador. Por detrás e através de suas palavras, Pedro expressa a realidade divina de Jesus, confirmada por Ele próprio ao dizer: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas! Não foram o sangue nem a carne que te revelaram isto, mas sim o meu Pai que está nos céus”. O Apóstolo crê ser Jesus o Filho de Deus, um Deus presente no mundo, e suas palavras tornam-se a profissão de fé da Igreja da Nova Aliança.   
Desde então, Jesus não mais pergunta, apenas profere algumas afirmações. Ao Apóstolo Pedro, Ele declara: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”. O nome dado a Simão, em seu primeiro encontro, é ratificado e passa a designar ser ele a pedra, fundamento da Igreja, que superando a “qahal”, assembleia dos fiéis do Antigo Testamento, passa a significar a reunião de todas as gentes no único povo de Deus. Teodoro de Mopsuéstia comenta: “Ao dizer que sua confissão de fé é uma rocha, Jesus afirma que sobre esta rocha construiria a sua Igreja”. Cabe a Pedro solidificá-la, confirmando os irmãos na fé e na prática da fé.

       Ao dizer-lhe: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus”, Jesus confere-lhe poderes de ordem espiritual, que evocam a ideia rabínica de excluir da comunidade ou nela admitir. A Igreja, sacramento de unidade e templo no qual Deus habita, se perpetua. Deus não a abandona às forças de destruição, pois estará com ela “até o fim dos tempos”, e a função do Apóstolo Pedro se estende por toda a história, através de seus sucessores. Como Pedro, eles irão se caracterizar pela prontidão de um coração caloroso e, sobretudo, pela acolhida do dom de Deus: natureza e graça, realidade humana onde Deus pode ser encontrado. Orígenes exclama: “É belo que Pedro tenha dito ao Salvador: ‘Tu és o Cristo’; melhor ainda, o fato de ele reconhecê-lo como ‘o Filho do Deus vivo’. Pois o próprio Jesus disse, seja pelos profetas: ‘Eu sou o Vivente! ’, seja no Evangelho: ‘Eu sou a Vida’”. Proclamada por seus sucessores, a profissão de Pedro é também professada por todos os que seguem Jesus, aos quais Ele diz: “Bem-aventurados sois vós”. E a luz do Pai neles refulge.  

Reflexão do Evangelho - Sábado 27 de Junho

Reflexão do Evangelho
Mt 11, 25-30 - Evangelho revelado aos simples
Sábado 27 de Junho

       Pôs-se Jesus a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos”. Os termos “céu e terra” designam toda a criação, segundo observa Santo Agostinho. Certamente, o orgulho intelectual, a frieza de coração e o fanatismo fecham o homem para as coisas de Deus e de seu Reino. O orgulho, aliás, é a raiz de todos os vícios e exerce grande influência sobre nós, impelindo-nos ao pecado.
Jesus contrasta o orgulho com a atitude de uma criança em sua simplicidade e humildade. O simples de coração vê sem pretensões, reconhece sua dependência de Deus e nele confia. As vocações de Davi e de Jeremias são dois exemplos, entre tantos outros, da predileção de Deus pelos pequenos e simples. Davi era um jovem pastor quando foi escolhido por Ele para ser rei de Israel. De origem camponesa, Jeremias não passava de um jovenzinho quando, por intervenção divina, foi consagrado como o “profeta das nações”. Deus se opõe aos orgulhosos e dá sua graça aos humildes. 
       Jesus rende graças ao Pai, porque diz Ele: “Escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos”. E, mais adiante, acrescenta: “Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. O verbo conhecer, em seu sentido bíblico, exprime aqui a comunhão tanto no pensar como no querer. A designação “Filho de Deus” não é um simples título, mas uma intimidade, uma comunhão total e perfeita de Jesus com o Pai. Unido ao Pai, significado pelo seu coração aberto, Ele é fonte de vida para todos nós.

         Portanto, é na intimidade com Deus que os simples e pequeninos são introduzidos, quando ouvem e aceitam com fervor as palavras de Jesus. No dizer de São Gregório de Nazianzo, outro que desde pequeno demonstrou inclinação para a vida mística, “o Senhor se faz pobre; suporta a pobreza de minha carne para que eu alcance os tesouros de sua divindade. Ele tudo tem, de tudo se despoja; por um breve tempo se despoja mesmo de sua glória para que eu possa participar de sua plenitude”. Eis a maior riqueza comunicada pelo amor transbordante de seu Sagrado Coração à humanidade: fazer parte da glória, da vida íntima do Pai. 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Reflexão do Evangelho - Sexta-feira 26 de Junho

Reflexão do Evangelho
Mt 8, 1-4 -Cura de um leproso
Sexta-feira 26 de Junho

        Um leproso se aproxima de Jesus e suplica: “Senhor, se queres, tens poder para purificar-me”. Pela Lei mosaica, a lepra era considerada uma doença passível de excomunhão. Quem a contraísse seria excluído do convívio comunitário e se, por acaso, alguém fosse curado, ele devia submeter-se ao rito de purificação. Por isso, ao milagre da cura de um leproso, sinal dos tempos messiânicos, liga-se a purificação.                           
              Apesar de tantas restrições e normas, o leproso não hesita. Aproxima-se do Mestre, que, sereno, não se afasta, acolhe-o. A pureza interior de Jesus é intocável. A cena comove os Apóstolos, levando-os à admiração e ao enlevo espiritual. De sua parte, profundamente sensibilizado, o leproso se prosterna, em sinal de adoração e, num ato de profunda humildade e de abandono confiante, implora: “Se queres, podes limpar-me”.
          Colocando-se acima da interdição da Lei, Jesus estende a mão e o toca. Toca-o, ciente de que, longe de ser contaminado pelo leproso, Ele pode purificá-lo. Levantando os olhos, e dirigindo-se a todos, proclama: Não é do exterior que provém a impureza, mas sim do interior do coração. E “movido de compaixão, estendeu a mão, tocou-o e disse: ‘Eu quero, sê curado’”. O que faz pensar nas palavras de S. Cirilo de Alexandria: “Ele lhe concede o toque de sua mão santa e onipotente e, imediatamente, a lepra se afastou dele e o seu sofrimento terminou”. Então, o santo alexandrino exclama: “Uni-vos a mim na adoração a Cristo, que exercia contemporaneamente o poder divino e corpóreo, Ele o cura e o toca”. Orígenes dirá que Jesus “o tocou para demonstrar humildade e ensinar-nos a não desprezar ninguém, por causa das feridas ou manchas do corpo”. Por isso, ele recomenda: “Que não haja em nossa alma a lepra do pecado; que não retenhamos em nosso coração nenhuma contaminação de culpa, e se a tivermos, adoremos ao Senhor e lhe digamos: ‘Senhor, se queres, podes limpar-me’”.

     Apesar de ser miraculosa, a cura do leproso não é, simplesmente, uma ocorrência medicinal. É fruto do carinho de Jesus, principalmente. Ele “tem compaixão” e o leproso, curado em sua carne, sentiu-se, sobretudo, amado, acolhido, reabilitado. Os santos compreenderam bem o sentido espiritual do milagre. S. Francisco de Assis, por exemplo, beija o leproso que ele encontra ao longo do caminho, e sente verdadeira doçura em seu coração. Fato que transforma sua vida e caracteriza sua conversão como entrega radical ao Senhor, pois, no leproso, ele experimenta Deus, que com suavidade e ternura o chama a crescer, cada vez mais, na acolhida do Mistério do seu amor. Não houve necessidade de muitas experiências, uma única já conduz Francisco à visão de um mundo novo, mais fraterno e solidário. Então, ele recorda as palavras de Jesus: “Quem não renunciar a si mesmo e tomar a sua cruz não é digno de mim”. S. Isaac, referindo-se às palavras do leproso, comenta que ele confessa duas coisas, “sua impureza e o poder do Senhor, e implora uma terceira: a cura”. E conclui: “Todo homem que invoca o nome do Senhor, com confiança, será salvo e ouvirá: ‘Eu quero, sê curado’”.