sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Reflexão do Evangelho - Sábado 20 e Domingo 21 de Dezembro

Reflexão do Evangelho
Lc 1, 26-38 - Anunciação do Senhor
Sábado 20 e Domingo 21 de Dezembro
                   
        Na pequena cidade de Nazaré, no romper do dia, uma jovem de nome Maria estava orando, quando lhe apareceu o arcanjo Gabriel.  Para seu espanto, ele anuncia que o Espírito Santo descerá sobre ela e a cobrirá com a sua sombra, assim como a nuvem, presença de Deus, tinha descido sobre o monte Sinai. Por isso, aquele que nascer dela será santo e chamado Filho de Deus. Com a resposta: “Seja feita a tua vontade”, Maria acolhe em sua humanidade a ação santificante do Espírito divino, que preside ao nascimento de Jesus. S. Justino e S. Irineu leem esta passagem à luz do relato do Gênesis e traçam um paralelo entre Maria e Eva, “a mãe de todos os viventes”, entre o “fiat”, o faça-se da anunciação, e a desobediência dos primeiros pais, causa decisiva do pecado original. Do mesmo modo, diante da pergunta: “Como é que vai ser isso?”, o anjo conduz Maria à fé e à obediência, ao contrário do anjo mau que incita Eva à desobediência e à incredulidade.
         Paralelismo presente na Tradição antiga, também nos comentadores contemporâneos. Longe de ser artificial, ele oferece ao acontecimento um alcance absolutamente universal, como bem observa S. Beda: “Como Eva trouxe em seu seio toda a humanidade condenada ao pecado, agora Maria traz o novo Adão que, com a sua graça, dará vida a uma nova humanidade”. Aquele que nasce de Maria, um dentre nós, é capaz de englobar todos nós, incluindo todas as possibilidades da humanidade, não excluindo nada de cada um, a não ser o pecado. Por isso, não é ousado declarar que Jesus só podia fazer-se homem nascendo da Virgem Maria, herdeira da História da salvação.
       Se, na origem, houve o casal Adão e Eva, agora, no princípio da nova criação, também há uma mulher e um homem, José, indicado como sendo “da linhagem”, “da casa de Davi”. Cumprem-se assim as profecias e proclama-se que Jesus é o Messias esperado e anunciado pelos profetas. E ao dizer que “o anjo Gabriel foi enviado por Deus”, esperançosa mensagem chega até nós, pois ela procede do alto e o que em Maria se realizou é iniciativa do Deus Altíssimo. Supremo mistério da fé cristã: O nascido da Virgem Maria é o Messias Salvador, por sua natureza, humano e divino.
       A saudação inicial: “Ave, cheia de graça” significa ser Maria efetivamente “cumulada de graça”, porque o que nela se realiza não provém de seus méritos, é dom divino, fruto da suprema benevolência de Deus. Concebida sem pecado, ela torna-se Templo, Morada (shekinah) da glória de Deus, da qual nascerá Jesus (Yoshua, que significa “Yah é Salvador”), o Filho do Altíssimo, cujo “Reino não terá fim”.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Reflexão do Evangelho - Sexta-feira 19 de Dezembro

Reflexão do Evangelho
Lc 1, 5-25 - Anúncio do nascimento de João Batista
Sexta-feira 19 de Dezembro
      
Estava Zacarias no Templo para desempenhar suas funções sacerdotais. De acordo com o que era prescrito, ele entra no Santuário para oferecer incenso, enquanto o povo permanecia fora, em oração. Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor, que lhe anuncia: “Não tenhas medo, Zacarias, porque a tua súplica foi ouvida, e Isabel, tua mulher, vai ter um filho ao qual porás o nome de João”. Deus se manifesta no recinto sagrado, durante um ato litúrgico, o que confere às palavras do anjo um alcance bem mais amplo e profético do que o fato da maternidade de Isabel. É resposta de Deus à prece de Zacarias. Mas também resposta de Deus à súplica de todo o povo fiel: “Terás alegria e regozijo, diz o anjo, e muitos se alegrarão com o seu nascimento”. A iniciativa da Boa Nova vem do anjo do Senhor, vem de Deus e é manifestação da sua vontade. Os nomes de Zacarias (Deus se recorda), Isabel (Deus jurou) e João (Deus é misericordioso) enraízam a missão do Batista no antigo povo de Deus e anunciam o novo tempo de salvação, que “trará alegria e regozijo a muitos”.
Impressionado com o que acontecia, Zacarias expressa reverencial temor a Deus, misteriosa sensação diante do divino. O anjo, presença da benevolência e da graça de Deus, o tranquiliza: “Não tenhas medo, Zacarias, porque a tua súplica foi ouvida”. E anuncia-lhe que o verdadeiro culto e as esperanças de Israel vão realizar-se em seu filho João, um consagrado a Deus, que “ficará pleno do Espírito Santo ainda no seio de sua mãe”. Ele converterá numerosos filhos de Israel, transmitindo-lhes o fogo sagrado de seus pais, os profetas e patriarcas.  A esterilidade de sua esposa Isabel é imagem do seu povo, que anseia pela vinda do Messias. “Tua prece foi ouvida”, diz o anjo, para expressar, observa S. Beda, “não diretamente sua súplica por um filho, pois Zacarias considerava tal fato impossível, mas referindo-se ‘à oração’ pela salvação de todo o povo. E essa oração foi ouvida”. Deus de Abraão, Isaac e Jacó se aproxima.
       O próprio nome a ser dado à criança, João, “Deus é misericordioso”, indica a intervenção de Deus, momento decisivo da História da Salvação. Ao dar-lhe um nome, dá-lhe também uma missão. Encerra-se o tempo da promessa e inaugura-se com ele o novo tempo da “shekinah”, da presença de Deus no meio do seu povo. João irá preparar os caminhos para o Messias e dar testemunho da luz, e será outro Elias, convocando todos à penitência e à conversão. Mas como duvidou das palavras do anjo, Zacarias permanece mudo e não pode falar até o nascimento da criança, sinal da veracidade da aparição e garantia do seu cumprimento.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

Reflexão do Evangelho - Quinta-feira 18 de Dezembro

Reflexão do Evangelho
Mt 1, 18-24 - Esposo de Maria e Pai adotivo de Jesus
Quinta-feira 18 de Dezembro

Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus se encarnou no seio puríssimo da Virgem Maria. Anunciadas ao longo do Antigo Testamento, realizam-se as esperanças e promessas de Israel. O nascido de Maria é o filho de Davi e de Abraão, pai de todos os povos. Assim, embora profundamente judeu em suas concepções, o Evangelho de S. Mateus apresenta uma rigorosa interpretação missionária e universalista da fé da Igreja nascente. Nesse sentido, mesmo quando descreve a árvore genealógica de Jesus, ele procura não só demonstrar a pertença de José à família de Davi, mas também realçar que o reino de Jesus vai muito além das promessas feitas a Davi: o seu reino é o reino do próprio Deus.
       Aquele que “nem os céus nem os céus dos céus podem conter” revela-se como aquele que se aproxima dos seus, “como nenhum outro Deus se aproximou do seu povo”. Ele aceita estar com os seus, para torná-los seu povo e, portanto, fazer-se o seu Deus. Nessa missão, de essencial importância são também os portadores humanos, desde os profetas e patriarcas até José e Maria, a mãe do Filho Unigênito, representante das esperanças da humanidade. Seu pai adotivo, José, nas palavras do Papa Bento XVI, “representa a fidelidade de Deus em relação a Israel, Maria é mãe com o seu próprio corpo: dela depende que Deus se tenha tornado verdadeiramente um de nós”.
 A silenciosa figura de José manifesta grandeza de alma e fidelidade aos planos de Deus. Ao ver Maria grávida, longe de condená-la, José, homem justo, guarda respeitoso segredo, levando S. Jerônimo a dizer: “Como pode José ser declarado ‘justo’, se ele escondeu a falta de sua esposa? Longe disso. É um testemunho em favor de Maria. José, conhecendo sua castidade e tocado pelo que lhe sucede, esconde, por seu silêncio, o acontecimento do qual ele ignora o mistério”. Perante o fato inexplicável da concepção de sua esposa, ele reconhece e respeita o mistério anunciado pelos profetas: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel”. 
       José estranha o silêncio da sua desposada. Não se julga, porém, autorizado a levantar o véu do mistério. Seus olhos refletem a fadiga das noites que passa angustiado e sem dormir, e eis que nos limites da desolação, pensando em deixá-la, aparece-lhe em sonho um Anjo do Senhor: “José, filho de Davi, não temas receber em tua casa Maria, tua esposa, pois o que nela foi concebido é obra do Espírito Santo”. O carpinteiro, homem simples e trabalhador, recebe o tratamento de um descendente de reis. Não contesta nem se orgulha, simplesmente ouve a voz do mistério e a guarda no sacrário da sua consciência. Não mais alimenta dúvidas, traz a certeza de que não era apenas um sonho, mas sim uma mensagem de Deus. A alegria é grande, ultrapassa de longe a angústia que o atormentava. E sem nada dizer, na obscuridade de um sim grandioso, ressoa igualmente em sua alma o “fiat” de Maria, em cujo seio crescia “a árvore do paraíso que abrigaria o mundo inteiro e iria oferecer seus frutos a todos, de longe e de perto” (S. Efrém).


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Reflexão do Evangelho - Quarta-feira 17 de Dezembro

Reflexão do Evangelho
Mt 1, 1-17 – Genealogia de Jesus
Quarta-feira 17 de Dezembro

       O sentido e a importância das genealogias na Bíblia são bem conhecidos. No relato da genealogia de Jesus, o Evangelista S. Mateus apresenta o Antigo Testamento como a história da presença de Deus se comunicando a nós. Na certeza do cumprimento de suas promessas, feitas e reiteradas através dos fatos históricos humanos, logramos chegar não ao conhecimento de um mistério isolado, mas, na dinâmica da História da Salvação, entrevermos um esplendor de luz, e discernirmos, para além da trama do mistério, o vulto do Inefável.
O mistério permanece insondável e grandioso. Mas eis que Cristo, estando no seio do Pai eterno, vida plena, verdade perfeita, veio até nós, e torna presente, em sua pessoa e missão, o plano de Deus em seu amor infinito. O fato de ter assumido nossa humanidade no seio da Virgem Maria, não é para sugerir que Ele era alheio aos laços humanos e que tivesse penetrado no mundo sem relação física com a humanidade. Pois Maria, sua mãe, também ela tem uma história que nos precede e que se insere na vida religiosa do seu povo, como já proclamava o profeta Isaías: “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emanuel, Deus conosco”. E não só. Por ocasião do seu nascimento, José, seu pai adotivo, lhe dá um nome, fato que o situa, segundo costume judaico, na cadeia das gerações, desde Abraão. Eis que se realizam as promessas e as esperanças de Israel: todo aquele que acolhe Jesus encontra o segredo da verdadeira e interminável vida, e as suas bênçãos divinas se estendem a todos os povos e nações, constituindo-os, com Israel, um único povo. Nesse sentido, S. Cirilo de Alexandria recorda que “Abraão é figura dos dois povos, o povo judaico e o dos gentios, que creram em Cristo”.
Na longa série de gerações, síntese de uma história palpitante, as figuras anunciadoras da obra do Messias levam a uma sempre melhor compreensão de sua pessoa. Assim, na plenitude dos tempos, vindo a nós, Ele dá a conhecer aos seus amigos “tudo o que ouvi do meu Pai” (Jo 15,15). Ele é a Shekinah, presença humana do Deus celeste, nuvem gloriosa que não só envolve o alto do Sinai ou o Arca da Aliança, mas Ele é a nuvem que penetra nossa história como mistério por excelência do soberano desígnio de amor do Pai. Inserido na história do povo de Israel, no dizer de Severo de Antioquia, “Ele participa da nossa natureza humana e cumpre todas as esperanças colocadas nele”.
         Portanto, o nascimento de Jesus, por intervenção do Espírito de Deus, revela a culminância profética e santa da História da Salvação. E a descrição de sua genealogia serve ao projeto de evidenciar a verdade de ser Ele o Messias, o Salvador prometido e anunciado pelos profetas. Nele, o Filho Unigênito de Deus, rei e salvador da humanidade, “nascido da família de Davi, segundo a carne” (Rm 1,3) e descendente de Abraão, pai de todos os povos, dá-se a intervenção decisiva de Deus na história da humanidade.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Reflexão do Evangelho - Terça-feira 16 de Dezembro

Reflexão do Evangelho
Mt 21, 28-32 -  Parábola dos dois filhos
Terça-feira 16 de Dezembro
      
       Um agricultor pede aos seus dois filhos para trabalhar em sua vinha. Um deles se dispõe a ir imediatamente, mas não vai, o outro, embora conteste com uma recusa categórica, termina indo. Destaca-se assim o contraste entre falar e agir. O que importa é cumprir a vontade do Pai. Já o profeta Ezequiel afirmava que o justo e o pecador não são julgados em seu ponto de partida, mas no final, por suas obras. Em outras palavras, o homem não é julgado simplesmente pelas suas intenções, mas pelo seu agir, reto, justo, bondoso. O próprio Jesus, em outro momento, afirma que “nem todo aquele que diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (7,21).
       Assim de modo singelo e direto, Jesus ilustra o caminho para se chegar ao reino dos céus. Até seus próprios ouvintes, interrogados por Ele sobre “qual dos dois tinha realizado a vontade do pai”, sem titubear, respondem: Aquele que se arrependeu e foi trabalhar no campo. Porém, para surpresa dos chefes do povo e doutores da Lei, Jesus conclui que “os publicanos e as prostitutas os precedem no Reino de Deus”, pois ouviram a pregação de João Batista, que veio num caminho de justiça e creram em suas palavras. Ao contrário, eles não deram sinal de ouvir as suas palavras, que os exortavam a trilhar o caminho da justiça na prática do bem. Nesse sentido, observa S. Bento: “Eis para nós a hora de deixar o sono. Tenhamos os olhos abertos à luz divina, as orelhas sensíveis à voz. Então, escutaremos a potente voz de Deus que nos solicita todo dia: ‘Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: Não fecheis os vossos corações’”.  
Após fazer tais considerações, a feição do Senhor não é sombria nem triste; sua voz serena e tranquila deixa transparecer o desejo de que eles se convertam e compreendam que se o fato de “falar de Deus é uma grande coisa, melhor é ser purificado por Ele” (S. Gregório Nazianzo). E no silêncio do seu amor, Ele nos encoraja: Ninguém deplore seus pecados, o perdão superou o mal; ninguém tema a morte, a do Salvador nos libertou do seu poder!


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

Reflexão do Evangelho - Segunda-feira 15 de Dezembro

Reflexão do Evangelho
Mt 21, 23-27 - Perguntas sobre a autoridade de Jesus
Segunda-feira 15 de Dezembro

       Certa feita, os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-se de Jesus para perguntar-lhe: “Com que autoridade fazes isso? Quem te deu tal autoridade?” Para Israel a autoridade era dom concedido por Deus em vista de uma missão; para os gregos e romanos era sinal de poder, obtido e consolidado pela força. Desde os primeiros momentos do cumprimento de sua missão, os ouvintes de Jesus se espantavam com seus ensinamentos, pois Ele falava não como os fariseus e escribas, mas com autoridade.  Ele perdoava os pecados e dizia ser o senhor do sábado. Os próprios escribas ficaram surpresos ao ouvi-lo dizer que “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estarei no meio deles”. Ora, eles próprios ensinavam que “se dois ou três estão unidos para estudar a Lei, Shekinah (presença de Deus) vive no meio deles” (Avot III,2). Não estaria Ele se colocando no lugar da Shekinah de Deus?
       Para o povo de Israel, a paternidade de Deus traduz intimidade e reciprocidade de conhecimento, que supera toda experiência humana. E eis que o profeta de Nazaré fala de que nele nós podemos chegar a conhecer Deus como Ele sempre nos conheceu. Preocupados e até certo ponto escandalizados, eles insistem para que Jesus lhes diga com que autoridade ensinava tais coisas. Ele não responde diretamente. Segundo o estilo rabínico, contenta-se em contestar em forma de pergunta.  Poderia até satisfazê-los, mas antes queria que eles, segundo Hilário de Poitiers, “respondessem à sua pergunta, se o batismo de João Batista vinha do céu ou dos homens. Eles hesitam, pois caso confessassem que ele vinha do céu, estariam se reconhecendo culpáveis por não terem acreditado na autoridade de uma testemunha que vinha do céu. Caso dissessem que vinha dos homens, temiam a multidão, que considerava João como um profeta. Receosos e desejando despistar, eles confessam a verdade sobre eles mesmos, sua incredulidade”.
Na realidade, como o batismo e a pregação de João Batista tinham grande repercussão, é inconcebível que eles os ignorassem. Por isso, ao dizerem que “não sabiam”, eles se desmoralizam diante do povo, e negam sua própria autoridade e deixam intacta a autoridade de Jesus. Na linha do seu Precursor, também Jesus é considerado pelo povo “enviado de Deus” para pregar o mesmo Evangelho de conversão, que abre as portas para entrar no Reino de Deus. Ademais, Jesus podia discretamente argui-los do testemunho dado por João Batista, que o proclama “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Reflexão do Evangelho - Domingo 14 de Dezembro

Reflexão do Evangelho
Jo 1,6-8.19-28 - Testemunho de João Batista
Domingo 14 de Dezembro
      
        Às margens do rio Jordão, destaca-se a austera e solene pessoa de S. João Batista, que veio preparar os caminhos do Senhor. Último dos profetas do Antigo Testamento, ele espera ansiosamente os tempos messiânicos prometidos. Ele não se desloca de um lugar para outro, o que é sugerido pelo verbo latino “stare”, pois sua função não é a de procurar por Jesus e segui-lo, mas a de ser o seu precursor e dar testemunho dele. João se autodenominava não o Messias, nem tampouco o profeta Elias, mas “uma voz que clama no deserto”, a voz de um arauto. Aliás, o relato do seu testemunho, fundamental para a fé dos primeiros seguidores do Mestre, reflete bem a originalidade do pensamento do Apóstolo S. João.  
Nesse sentido, para valorizar ao máximo a sua função de precursor e de testemunha, o Apóstolo S. João jamais emprega o termo “Batista“ para designar João e a sua missão. Um belo exemplo, encontramos na passagem seguinte, na qual ele relata o fato de os judeus terem enviado de Jerusalém sacerdotes e levitas para o interrogarem. Eles simplesmente perguntam: “Quem és tu?” E ele, conhecendo as intenções dos que o interrogavam, sem titubear, testemunha: “Eu não sou o Cristo”, título que designa o Messias, o “ungido”, o enviado escatológico, o novo Davi, esperado por todo o povo como aquele que viria para libertá-lo do jugo estrangeiro e, portanto, restabelecer o reino de Israel. Humilde, João não deseja ser considerado mais do que realmente ele é.
 Ora, a curiosidade é grande, não só dos judeus de Jerusalém, mas de todo o povo, que acorre para ouvi-lo. Eles querem saber, de seus próprios lábios, se ele é ou não o Messias. Daí a insistência dos mensageiros, que voltam a lhe fazer a mesma pergunta. E João, com os olhos fixos neles, em alto e bom som, declara não ser o Messias, aquele que daria início ao “Tempo Final”, ele é simplesmente uma voz que veio para preparar os corações para a sua vinda. E, para que toda dúvida fosse afastada, ele acrescenta: “Após mim vem aquele, do qual não sou digno de desatar a correia da sandália”. No entanto, João Batista não se furta à pergunta dos que o interrogam. Com serenidade, ele esclarece que a sua missão consiste em “batizar com água” para a penitência, pois para acolher Jesus, escreve S. Agostinho, “é necessário tirar a areia dos olhos”, tornar-se sensível à beleza do mundo, ao sofrimento e à angústia dos seus semelhantes.
Afastam-se as densas nuvens da incerteza e da dúvida, e já despontam, nos horizontes dos ouvintes, os albores da paz e da alegria espiritual, frutos do perdão e da remissão dos pecados. Realiza-se a missão do profeta: apregoar o arrependimento dos pecados e a conversão. Enquanto, “àquele que vem, Jesus, pertence a missão, diz S. Hilário, de salvar os que depositam fé em seu nome”. Ao longe, vislumbra-se o Messias, vulto humano de Deus, e já ressoa a potente voz do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.


Dom Fernando Antônio Figueiredo,o.f.m.