terça-feira, 22 de abril de 2014

Reflexão do Evangelho de Quarta-feira – 23 de Abril - Lc 24, 13-35: Os discípulos de Emaús

Reflexão do Evangelho de Quarta-feira – 23 de Abril
Lc 24, 13-35: Os discípulos de Emaús

         Cléopas e outro discípulo puseram-se a caminho na tarde do dia em que em que as mulheres tinham falado do túmulo vazio e das aparições de Jesus. Como outros discípulos, eles não levaram a sério o que elas disseram, julgando não passar de meras fantasias. Por isso, desconsolados e tristes, os dois afastam-se de Jerusalém, dirigindo-se às aldeias onde moravam. Emaús não era distante de Jerusalém, umas duas horas a pé. Durante o percurso, comentavam o que tinha acontecido na capital e consolavam-se mutuamente.
O sol despedia-se, escondendo-se no horizonte arenoso e seco, quando a eles se juntou um estranho viajante, que lhes pergunta a causa daquela tristeza. Sem mesmo fixar seus olhos no viajante, admirados, eles lhe perguntam: “Tu és o único forasteiro em Jerusalém que ignora os fatos que nela aconteceram nestes dias?” “Quais?, disse-lhes ele”. E Cléopas começa a falar sobre Jesus, “profeta poderoso em obra e em palavra”, que tinha sido levado à morte pelos chefes dos sacerdotes. Eles o entregaram a Pilatos para ser crucificado. “Nós esperávamos que fosse Ele que iria redimir Israel”. E já se passaram três dias de sua morte e hoje, pela manhã, algumas mulheres do nosso grupo contaram coisas inimagináveis, mas alguns dos nossos que foram ao sepulcro, embora tenham constatado tudo o que as mulheres disseram, não o viram.
        Para espanto dos dois discípulos, o estranho reage e começa a repreendê-los: “Ó insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram!” E, pondo-se a caminho com eles, mostra-lhes a partir das Escrituras que Ele iria ressuscitar ao terceiro dia. Certamente, refere-se ao cordeiro imolado, símbolo de sua morte, a pedra angular rejeitada pelos construtores e as profecias de Isaías sobre o Servo Sofredor. A pouco e pouco Ele os reanima e infunde em seus corações o bálsamo da fé. Chegando à cidade, Ele faz menção de continuar o caminho. Já reanimados e sentindo alegria no convívio com o estranho, pedem-lhe que permaneça com eles.
         O caminho é longo, o dia declina e a tarde vai adiantada, sinal natural da caducidade das realidades do mundo, recordando que em meio ao que passa, soa o solene apelo ao que não passa. A paciência de Jesus é inesgotável. Ele não se revelou logo no início, mas espera a hora da esperança, em que a “prece sobe a Deus como o incenso vespertino” (Sl 141). Então, na estalagem, o forasteiro toma o pão, abençoa-o, depois, parte-o e dá um bocado para cada um deles. Aquele gesto era inconfundível. É a eucaristia, “o pão da vida, quem come a vida não pode morrer”, exclama S. Hipólito. S. Inácio de Antioquia professa ser “o fermento de imortalidade”. De seus olhos cai o véu que os impedia de reconhecê-lo, e então compreendem que quem estava à mesa com eles era o Mestre. Seus corações e corpos purificam-se no fogo eucarístico, forma permanente da aparição do Ressuscitado e eles exclamam: “Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” Imediatamente, levantam-se e retornam a Jerusalém.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

domingo, 20 de abril de 2014

Reflexão do Evangelho de Segunda 21 de Abril e Terça feira de 22 de Abril

Reflexão do Evangelho de Segunda 21 de Abril e Terça feira de 22 de Abril
Mt 28, 8-15 e Jo 20, 11-18 Aparição às santas mulheres
        
         João Batista pregava, quando um grupo de pessoas se reunia ao seu redor, Jesus, por sua vez, vai ao encontro do povo, peregrinando de cidade em cidade. Numa vida itinerante, Ele ia às cidades e aldeias e sua voz era ouvida nas sinagogas e no Templo; noutras ocasiões, Ele fala às multidões, reunidas em lugares desertos ou sobre belas colinas e mesmo à beira do lago de Genesaré. Acompanham-no os Apóstolos, fiéis seguidores, e as santas mulheres que os serviam com os seus bens. Elas mostravam-se silenciosas, de grande afabilidade e generosidade, exprimindo, assim, seu agradecimento pelo muito que tinham recebido do Senhor. Após o sepultamento do Mestre, elas serão as primeiras a irem ao túmulo para lhe prestar homenagem. Chegando, veem a pedra retirada e debruçando sobre o túmulo, constatam que estava vazio. À sua entrada, guardando o recinto, um anjo as exorta: “Não temais! Sei que vós estais procurando Jesus, o Crucificado. Ele não está aqui, ele ressurgiu, conforme havia dito”. Com a vitória da vida, a morte é vencida e surge um novo tempo, primícias da consumação dos séculos. Exclama Melitão de Sardes: “Ressuscitando dos mortos, Jesus ressuscitou também a humanidade das profundezas do sepulcro”.
         O sol projetava seus primeiros raios de luz, com os olhos marejados de lágrimas, as santas mulheres temem que os soldados tenham levado o corpo do Senhor. As palavras do anjo não aquietaram seus corações apreensivos. Sempre compreensivo e bondoso, o próprio Jesus “sai ao encontro delas, dizendo-lhes: alegrai-vos. Reconhecendo-o, elas se aproximam dele, abraçam-lhe os pés, e se prostram diante dele”. Imediatamente, a tristeza dá lugar à alegria e à gozosa adoração. O sepulcro, lugar de dor e de lamentação, torna-se expressão de esperança e de conforto. Também as lágrimas se transformam. Agora, com lágrimas de alegria, elas partem apressadamente para dar a boa-nova aos Apóstolos e transmitir-lhes a mensagem do Senhor: “Anunciai a meus irmãos que se dirijam para a Galileia; lá me verão”. Mas os inimigos de Jesus não dão trégua. Ao saber, pelos guardas, do sucedido, os chefes dos sacerdotes lançam um último e desesperado intento para sufocar a ação gratuita e benevolente da vontade de Deus. Subornam os soldados. Eles não deveriam narrar a verdade dos fatos, mas desfigurá-los, dizendo falsamente “que os discípulos tinham roubado seu corpo enquanto eles dormiam”. Último vislumbre da maldade urdida pelos inimigos do Senhor.
         Nesse episódio, é ressaltada a perseverança das santas mulheres. Embora os discípulos tivessem se retirado, Maria Madalena permanecia junto ao túmulo. Diz S. Gregório Magno: “Buscando, ela chorava, e o fogo de seu amor, tornava ainda mais vivo o desejo por seu Senhor desaparecido. Ela foi recompensada, é a única a vê-lo, pois da perseverança provém a força de toda boa ação”. Ao adverti-la de não tocá-lo, “porque, dizia Ele, não subi ainda ao Pai”, Jesus a erige como sinal para todos os seus discípulos: antes de tocá-lo há de se ter a experiência pessoal e interiorizada de sua presença. A propósito, observa S. Jerônimo: “Como os Apóstolos, também ela deve crer espiritualmente, pois Ele já se encontra estabelecido à direita do Pai, na glória celestial”.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Reflexão do Evangelho de Sábado 19 de Abril e Domingo 20 de Abril

Reflexão do Evangelho de Sábado 19 de Abril e Domingo 20 de Abril
Mt 28, 1-10 e Jo 20, 1-9: Ressurreição do Senhor

         Entre os Apóstolos e discípulos do Mestre reinava o desalento. Teria sido Ele abandonado por Deus? Por que, tão jovem e portador de esperança para tantas pessoas, teria Ele sido submetido a uma morte tão desonrosa? Alguns deles, desiludidos, deixavam a cidade de Jerusalém, retornando às suas vilas. Seria Ele de fato o Messias esperado? O que fazer? A derrota era irremediável, seus sonhos de glória caíam por terra e um profundo amargor buscava dominar seus corações. 
         Eis que no primeiro dia da semana, bem cedo, Maria Madalena vai ao túmulo de Jesus. O sol não tinha ainda raiado. Mas sua luz bruxuleante permitia-lhes notar que algo tinha acontecido: a pedra tinha sido removida. Ela e as mulheres, que a acompanhavam, buscam ver dentro do sepulcro e notam que ele estava vazio. Admirada, talvez assustada, Maria corre até Simão Pedro e ao outro discípulo, que céleres se dirigem ao túmulo. João vai mais rápido, por causa de sua juventude, também, segundo alguns S. Padres, “pelo zelo de seu amor”. Eles fariam a verificação “oficial” do túmulo vazio. João chegou ao sepulcro por primeiro. Como as mulheres, ele olhou para dentro do sepulcro, mas não entrou. Espera por Pedro, sinal de notável deferência, sinal de reconhecimento do primado do Apóstolo Pedro. Este ao chegar, levado por seu temperamento impetuoso, entra imediatamente, “vê os panos de linho por terra e o sudário que cobrira a cabeça de Jesus”.
“Então, entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: e viu e creu”.  A Pedro, cabe a precedência, a João, o discípulo amado, a fé. É o despontar da fé na ressurreição do Senhor, não como simples retomada da vida anterior, assim foi a de Lázaro, mas como a entrada definitiva do Senhor na Vida, onde a morte não encontra lugar. Diante das palavras de Jesus ressuscitado: “Sou eu mesmo”, as dúvidas dos Apóstolos desaparecem, mas também pelo fato de eles estarem reunidos e Ele, aparecendo, pede-lhes do que comer, e a Tomé Ele manda tocar as chagas de suas mãos e de seu peito. A fé não é fruto de sensações subjetivas, pois perante os Apóstolos está Jesus ressuscitado, que os conduz ao reconhecimento de sua forma mais elevada de existência. Ele aparecia e desaparecia de modo repentino, algumas vezes estando eles reunidos com as portas fechadas. Admirados, contemplavam sua corporeidade transfigurada, melhor, contemplavam-no em sua realidade divina. Não mais sujeita aos limites e barreiras da natureza humana.
         Também nós, felizes e admirados, louvamos essa sua presença, pois o que não é possível a Deus, a morte, foi ela assumida por Cristo, o Filho de Deus e o que não é possível a nós, a vida eterna, foi-nos concedida por Cristo em sua Ressurreição. Proclama S. João Crisóstomo: “Ninguém se aflija com a própria nulidade, porque se estabeleceu um reino aberto a todos. Ninguém chore pelos próprios pecados, porque o perdão emergiu do túmulo. Ninguém mais tenha medo da morte, porque dela nos livrou a morte do Salvador: prisioneiro da morte, Ele a sufocou, tendo descido aos infernos, submeteu os infernos. Morte, onde está o teu aguilhão? Infernos, onde está a vossa vitória? Cristo ressuscitou, e vós estais revoltos; Cristo ressuscitou, e os demônios estão aniquilados, Cristo ressuscitou, e os anjos rejubilam; Cristo ressuscitou, e a vida está coroada”.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Reflexão do Evangelho de Sexta-feira – 18 de Abril

Reflexão do Evangelho de Sexta-feira – 18 de Abril
Jo 18, 1 – 19,42 – Paixão de Jesus
        
         Jesus no monte das Oliveiras. Ele reza. Os Apóstolos dormem. Já se ouviam, descendo de Jerusalém e subindo o monte das Oliveiras, os passos dos que iriam prendê-lo. Jesus tinha previsto os sofrimentos pelos quais iria passar. Prostrado em terra, “Ele ora com mais insistência ainda e o suor se lhe tornou semelhante a espessas gotas de sangue que caiam por terra”. Indo aos discípulos, que “estavam à distância de um arremesso de pedra”, como que procurando consolo e alívio, chama por eles. Vendo-os dormindo, diz-lhes: “Dormi agora e repousai”. E em tom de reprimenda: “Não conseguis vigiar nem uma hora comigo?” Tomados pelo cansaço, Pedro e os demais se deixam vencer pelo torpor do sono. Jesus sente-se só e retorna à oração. Seus lábios se abrem e ouvem-se murmúrios de uma alma aflita: “Abba, Pai, se possível afaste de mim este cálice”. Luta interior e, ao contrário de Adão, num fio de voz, Ele exclama: “Entretanto, não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres... Não a minha vontade, mas a tua”. Entrega total do Filho ao amor do Pai, força que lhe permite afrontar e vencer a morte. Então, voltando-se para discípulos, Ele os acorda: “Levantai-vos! Vamos! Eis que meu traidor está chegando”.
         Os soldados o rodeiam. Judas se adianta e o saúda: “Salve Mestre, beijando-o”.  Num último apelo, sussurra-lhe Jesus: “Amigo, para que estás aqui?” “Com um beijo entregas o Filho do homem”. Seus inimigos venciam e o plano por eles arquitetado alcançava pleno êxito. Tomados pelo pânico, os Apóstolos, apesar das promessas de fidelidade, dispersam-se. Somente Pedro e João o seguem, de longe. Preso, arrastado e vilipendiado, os soldados o levam consigo e o lançam na prisão. É a paixão do Senhor e, mais tarde, a sua crucifixão.
No dia 14 nisan, ao meio-dia, um grupo de pessoas avança em direção ao Gólgota. Jesus caminha a passos lentos, carregando nos ombros, conforme costume da época, o braço horizontal da cruz. No alto da colina, algumas mulheres, dentre elas a sua mãe Maria, assistem à crucifixão. O eco terrível dos martelos, que fincavam os cravos em seus pulsos e pés, soa em seus corações. Erguido do chão, os olhos de Jesus não se turvam, mas doces e serenos se fixam em seus algozes. Já entrecortada de dores, sua voz percute no silêncio dos seus corações indiferentes: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. O ar carregado e zombador dos inimigos não supera a misericórdia do Crucificado. Até o bom ladrão dela participa: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”. Nuvens carregadas cobrem o céu, parecendo encobrir a vergonhosa loucura dos homens. Alguns transeuntes zombam dele, outros caçoam. Jamais perdendo a serenidade, voltando-se para seu discípulo amado, Jesus recomenda: “Eis tua Mãe”, e para sua Mãe: “Eis teu filho”. Representando todo verdadeiro discípulo de Jesus, João reconhece Maria como sua mãe, que, com carinho maternal, o abraça. Afago materno que se estende pelos séculos, consolando-nos e animando-nos no seguimento do Filho amado.
Após sentir em seus lábios uma esponja embebida de vinagre, Jesus com voz forte brada: “Tudo está consumado”. Diz Orígenes: “Com plena confiança, ele entregou seu espírito nas mãos do Pai”. A terra treme, fendas aparecem nos rochedos e o centurião, que ouvira suas últimas palavras, “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito”, confessa: “Na verdade, Ele era o Filho de Deus”. Jesus, nosso Salvador deu a vida por toda a humanidade. E nós, mergulhados no seu inefável mistério de amor, dizemos com S. Gregório de Nazianzo: “Uma só gota de seu sangue renova o mundo inteiro”.  No abandono total, experiência de sua natureza humana, Jesus se volta para o Pai e, na gratuidade plena, entrega-se a Ele. Salvação e reconciliação, paz e felicidade descem até nós, banhando nossa vida e nos transformando em arautos da Boa-Nova.  


Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Reflexão do Evangelho de Quinta-feira santa – 17 de Abril

Reflexão do Evangelho de Quinta-feira santa – 17 de Abril
Jo 13, 1-15 – Última Ceia
        
         Ao cair da tarde, Jesus entrou na cidade de Jerusalém com os discípulos. Por ordem do Senhor, Pedro e João foram à casa de “alguém” e disseram-lhe: “O Mestre diz: o meu tempo está próximo. Em tua casa irei celebrar a Páscoa com os meus discípulos” (Mt 26,18). O dono da casa os recebe, com tudo preparado: no andar de cima, uma ampla sala, pronta, varrida e sobre a mesa alguns pratos com o pão ázimo, as jarras de vinho e as taças. Segundo a tradição, todos se estenderam sobre pequenos leitos baixos: João ao lado do Mestre, Pedro na frente e Judas não muito distante. Era o momento sagrado, que seria perpetuado pela Igreja nascente, cuja memória estaria presente em hinos e orações, e iria inspirar grandes mestres como Giotto e Leonardo da Vinci. Momento de alegria e de simplicidade. Solenemente, Jesus anuncia: É chegada a “hora”, e a hora é agora. E, com o coração palpitante de amor, Ele faz o seu último e mais íntimo discurso, que o evangelista introduz com as palavras: “Tendo amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim”. “Até o fim”, não só o último momento, mas “a plenitude”, prenúncio do seu brado na cruz: “Tudo está consumado”.
Após lavar simbolicamente as mãos, rito prescrito para o início da ceia, para surpresa de todos, Jesus levanta-se, cinge-se com uma toalha e põe-se a lavar os pés dos Apóstolos. Segundo costume judaico, tal gesto deveria ter acontecido antes de eles terem ido à mesa. Gesto geralmente confiado a um servo ou escravo. Mas na comunidade de Jesus não havia e nem poderia haver a função de servos, que é exercida pelo próprio Mestre. Ele é o servo de Deus e dos homens. Pasmos, eles o veem passar de um a outro discípulo, lavando seus pés. Ao chegar junto a Pedro, este protesta: “Senhor, tu, lavar-me os pés?” A resposta do Senhor é imediata: “O que faço, não compreendes agora, mas o compreenderás mais tarde”. As palavras do Mestre levam-no para além do simples rito da ceia pascal: “Se não te lavar, não terás parte comigo”, e ele antevê esse gesto como elemento do rito de purificação, necessário para fazer parte do convívio com o Mestre e para participar da vida de comunhão com o Pai. Depois de lavar os seus pés, “Jesus voltou à mesa e lhes disse: Compreendeis o que vos fiz?” Ora, se eu vos lavei os pés, “vós que me chamais de Mestre e Senhor e dizeis bem, pois eu o sou”, muito mais, entre vós, “vos deveis também lavar os pés uns aos outros”.
 Logo após, “enquanto comiam, tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, o partiu, e o deu a eles dizendo: Tomai, isto é o meu corpo’”. Partir o pão e distribui-lo aos Apóstolos exprime fraternidade e, para os primeiros cristãos, irá caracterizar a Eucaristia como “fração do pão”. A seguir, tomou “o cálice de ação de graças” e disse: “Este é o cálice do meu sangue”, o sangue da nova Aliança, derramado na cruz. Celebrar a Ceia é participar do amor infinito do Senhor, em sua presença real no meio de nós, e é ter “os mesmos sentimentos que foram os de Jesus Cristo”, do começo ao fim de sua vida terrena, um lava-pés, um serviço aos semelhantes. Em suma, para se aproximar da Eucaristia, há de se viver o espírito do lava-pés, para que assim se realizem as palavras de Jesus: “Sabendo disso, vós sereis felizes, se o praticardes” (Jo 13,17).  


Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Evangelho de Terça-feira 15 da Abril e Quarta-feira 16 de Abril

Evangelho de Terça-feira 15 da Abril e Quarta-feira 16 de Abril
Jo 13, 21-33.36-38 / Mt 26, 14-25: Anúncio da traição de Judas

         “Um de vós me entregará”. Perplexos, os Apóstolos entreolham-se em silêncio. Estas palavras de Jesus, justamente pela sua imprecisão, trazem inquietação. A face do Senhor demonstra tristeza ao pronunciar o salmo: “Aquele que come comigo ergueu o calcanhar contra mim”. Confusos, temerosos e inseguros, os Apóstolos perguntam um depois do outro: “Não sou eu, sou?” Escreve Orígenes: “Jesus fala, de modo geral, para provar a qualidade de seus corações, para mostrar que os Apóstolos acreditavam mais nas palavras do Mestre, que em sua própria consciência”. Também Judas, torturado por sentimentos contraditórios, ousa perguntar: “Porventura sou eu?”
Angustiado pela incerteza, Pedro recorre ao discípulo, que estava ao lado do Mestre, para saber quem era o traidor. Com voz tênue, Jesus lhe responde: “É aquele a quem eu der o pão, que vou umedecer no molho”. Sugere alguém que come do mesmo pão para realçar o contraste entre a comunhão à mesa dos irmãos e a traição. O traidor rompe esta comunhão.  Querendo talvez, mais uma vez, salvar a ovelha desgarrada, Jesus tomou um bocado de pão e o deu a Judas. Ao invés de se deixar iluminar pela misericórdia divina, ele tornou-se ainda mais sombrio; “satanás entrou nele”, segundo o evangelista.
Mais uma vez, vê-se a paciência e a bondade de Jesus. Ele não amaldiçoa, nem condena Judas. Suas palavras são como um último apelo à conversão do Apóstolo. Mesmo ao dizer o terrível “ai”, o Senhor não deixa de indicar que a responsabilidade cabe a Judas, pois ele e os demais Apóstolos estão à mercê da misericórdia divina, que não os abandona. Fitando-o nos olhos, Jesus lhe diz: “Faze depressa o que tens a fazer”.
         Diante do doloroso enigma do mal praticado, reconhecemos a opção de Judas como um ato de livre determinação (autecsousía), que, infelizmente, atingido pela ganância, levou-o a resvalar em erro. O Evangelho destaca: “E era noite”. Observação que adquire um valor simbólico dramático, evocando a hora das trevas e a ação dos filhos do mal. Quem anda à noite tropeça, pois não há luz e ele não sabe aonde ir. E as trevas da noite o envolveram em sombras.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

domingo, 13 de abril de 2014

Reflexão do Evangelho de Segunda-feira – 14 de Abril

Reflexão do Evangelho de Segunda-feira – 14 de Abril
Jo 12, 1-11: A unção de Betânia

Pasmos, os convivas veem uma mulher que, durante a refeição, aproxima-se de Jesus e lava os seus pés com um precioso perfume. O fato de ungir os pés e a cabeça de um convidado era prova de respeito, muito frequente naquela época. Seu gesto, porém, é recriminado, principalmente, por Judas Iscariotes, caracterizado como traidor e como aquele que, sob o véu da piedade e do fingido zelo pelos pobres, esconde a intenção de desviar para si o que era destinado aos pobres.
Nada é alheio ao Senhor. Ele não rejeita, nem condena aquela mulher, dizendo aos presentes “Deixa-a; para me ungir no dia de meu sepultamento”. O gesto da mulher traz à memória o amor gratuito dos pobres, que generosamente se doam, e o valor absoluto do amor a Deus. A pobreza e seus problemas não são enfrentados com a lógica de Judas, bolsa cheia, mas com a lógica do Evangelho, amor gratuito e generoso. Aliás, citando o Deuteronômio (15, 9-11), Jesus preceitua esta generosidade, presente nos Evangelhos de Mateus e Marcos, o que leva S. Cirilo de Alexandria a dizer: “Marta serve, Maria derrama o perfume: assim, pelas duas, efetiva-se o amor total”.
Maria “tomou uma libra de um perfume de puro nardo”. O termo grego “pistikós”, traduzido por “puro”, é relacionado pelo evangelista S. João à palavra “pístis” (fé) para acentuar que, aos olhos de Jesus, o que conta é a fé testemunhada. Por isso, o venerável Beda recorda que “os fiéis são também denominados nardos porque compartilham, por meio da fé, dessa unção custosa e pura, e, por suas palavras e atos, rescendem o odor do perfume em toda a Igreja”.
A unção de Betânia reflete a iminência da partida de Jesus e o apreço e o carinho por Ele. Mas o Evangelho de S. João também ressalta, de modo particular, a mensagem profética, simbolizada pelo vaso de alabastro rompido, perfumando o ambiente e prefigurando o perfume divino da fé, que se difundirá por todo o mundo, graças ao exemplo e às palavras dos discípulos. O próprio Senhor proclama: “O que fez esta mulher, será anunciado no mundo inteiro”, pois o que se refere à realidade do mistério de Cristo ultrapassa toda palavra e todo gesto humano.  Então, uma súplica desponta espontaneamente do nosso coração: Que o perfume da fé se difunda e penetre os corações dos que acolhem o divino Mestre, levando-os a se curvarem para lavar os pés uns dos outros.  

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM