quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 49-53 - Jesus diante de sua Paixão (sinal de contradição) - Quinta-feira 23 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 49-53 - Jesus diante de sua Paixão (sinal de contradição)
Quinta-feira 23 de Outubro
      
O sol surgia no horizonte. A cidade despertava. Parecendo romper as barreiras do mundo físico, a voz do Senhor soou forte: “Eu vim trazer fogo à terra, e como desejaria que já estivesse aceso!” Pasmos, os discípulos se perguntavam: Que fogo é esse? Certamente, não o fogo vingador ou o da Geena, mas aquele anunciado por S. João Batista, o fogo do batismo que confere nova vida. Dizia João: “Eis que virá quem vos batizará com o Espírito Santo e com fogo!” (Lc 3,16). “Esse fogo – comenta S. Cirilo de Alexandria - é a salvífica mensagem do Evangelho, é o poder dos ensinamentos do Messias. Poder que inflama a terra e conduz os homens a uma vida de piedade e de amor”. Com a sua vinda, qual fogo divino, brilhou a fé, a caridade iluminou a todos e resplandeceu a justiça. Palavras lembradas pelos Apóstolos, no dia de Pentecostes, quando receberam o Espírito Santo precisamente sob a forma de línguas de fogo.
Em forma de paráfrase ao texto bíblico, Orígenes escreve: “Quem está perto de mim, diz Jesus, está perto do fogo; quem está longe de mim está longe do Reino”. O fogo fala de proximidade a Cristo, provocando a alternativa: estar ou não nele, deixar-se queimar por Ele ou se excluir do Reino. 
       E no silêncio do amor, o Senhor, o Filho de Deus encarnado, nosso Salvador, espera por nossa decisão. Há os que não o acolhem, os fariseus e doutores da Lei, por não admitirem que o Messias anuncie o Evangelho do amor e da misericórdia, e abrace a cruz como caminho de salvação. Mas há os que estão abertos à sua pregação e seguem com todo empenho o itinerário da cruz e do serviço, o mesmo percorrido por Jesus até o Calvário. Realizam-se assim as palavras do velho profeta Simeão, dirigidas ao menino Jesus, declarando-o “sinal de contradição”, o que é lembrado pelo próprio Senhor, ao dizer: “Numa casa com cinco pessoas, estarão divididas três contra duas e duas contra três”.
 A vinda de Cristo, tempo de decisão, nos reenvia ao fim dos tempos, mas também ao hoje totalmente atual. A verdade da Palavra de Jesus é força purificadora e renovadora, que como uma espada penetra nossa condição de morte e de divisão, para tudo preencher de luz e de esperança. O que significa isso para nós? Porventura, está o nosso coração fechado à misericórdia e ao amor? Depende de nossa decisão. A opção por Jesus transfigura o intelecto, a força e o desejo, e nos torna sinal profético de solidariedade e de doação fraterna, pois o amor ao próximo resulta do amor a Jesus e a acolhida do pobre significa adesão de vida a Cristo, independente do grau de consciência daquele que o acolhe.   


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 39 – 48 -Vigiai, pois o Senhor não tarda a vir - Quarta-feira 22 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 39 – 48 -Vigiai, pois o Senhor não tarda a vir.
Quarta-feira 22 de Outubro
             
Deus nos ofereceu o maior e o mais belo tesouro: seu Reino de paz, de alegria e de justiça. Mas podemos perdê-lo se não estivermos vigilantes. O Evangelho de São Mateus deixa claro que ninguém, além do Pai, sabe o dia em que Jesus voltará para o Juízo Final. Assim como aconteceu nos tempos de Noé, acontecerá na vinda do Filho de Deus: “Nos dias que precederam o dilúvio, comiam, bebiam, casavam-se e se davam em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca”. Os homens não desconfiavam de nada, até que as águas do dilúvio vieram e levaram a todos.
O próprio Cristo adverte: “Assim acontecerá na vinda do Filho do Homem”. Orígenes, grande escritor do século III, aconselha os homens que se mantenham em vigília pela volta do Senhor tanto à tarde, à meia noite, ao canto do galo, quanto de madrugada. Trata-se de uma comparação com as diversas idades do homem, ou seja, devemos nos manter vigilantes na juventude, na meia-idade, na velhice e na mais avançada fase da vida. Afirma Orígenes: “Virá o Senhor ao que não deu sono aos seus olhos, nem descanso às suas pálpebras, e guardou o mandamento daquele que disse 'vigiai em todo tempo'”. Ocorrerá, então, a parusia, a volta de Jesus, em sua glória no tempo do Fim. Os que se prepararam, seguindo os seus ensinamentos, participarão da plenitude da sua alegria na glória do Pai. Mas agora, ao longo da jornada da vida, eles reconhecem que a alegria não dispensa a cruz, ela a compreende e é vivida por todos os que abraçam os sofrimentos de Jesus e se empenham em aliviar as dores e angústias de seus irmãos.
Jesus adverte a seus discípulos que nem os anjos do céu sabem quando será a volta do Senhor à Terra, e, ainda avisa: “Não vos pertence saber”. São João Crisóstomo vê nessas palavras o apelo do Senhor para que “cada um sempre o espere e sempre se empenhe” no serviço aos pobres e desvalidos.
A Tradição cristã chama o momento após a morte de julgamento pessoal, para distingui-lo do julgamento último, universal, embora também ele não deixe de ser pessoal. É necessário viver cada instante, intensamente, segundo a vontade do Pai, em comunhão com o outro, cuja alteridade permanece irreduzível. Então, a alma, incendiada pelo amor proveniente de Deus, é atraída à profundidade do mistério da Trindade e vive, no Espírito, a alegria da comunhão.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 35-38 - Prontidão para o retorno do Mestre - Terça-feira 21 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 35-38 - Prontidão para o retorno do Mestre
Terça-feira 21 de Outubro
      
       O eterno e o infinito adquirem semblante e voz humana no Filho de Deus, nascido de Maria. Ele, revelação plena de Deus, entra em nossa história e comunica o Evangelho do amor e da misericórdia, que nos permite fazer parte da única contemplação do Pai, feito nosso Pai, em seu Filho, que se fez nosso irmão. Em sua vida pública, Ele nos prepara espiritualmente para seu retorno em glória, no fim dos tempos.
Para melhor compreendê-lo, Ele conta a parábola do “retorno de um senhor” após a festa de núpcias. Felizes os que estavam preparados para recebê-lo. O mesmo acontecerá com a vinda do Filho do Homem, que virá quando menos se espera, e oferecerá àqueles que estiverem vigilantes seu Reino de paz e de justiça. Eles, porém, correm o risco de perdê-lo, caso não se preparem devidamente para a sua vinda ou, como diz o Evangelho, não tiverem “os rins cingidos e as lâmpadas acesas”.
A expressão trazer “lâmpadas acesas”, segundo S. Agostinho, significa manter-se vigilante mediante a prática das boas obras, e a cuidadosa instrução dada a Moisés e a Aarão, no tocante à Páscoa: “ter os rins cingidos”, significa conservar-se na disposição virtuosa de quem se orienta de acordo com a reta razão e não se deixa guiar pelos movimentos impetuosos das paixões. Nesse sentido, vigilância é compreendida como libertar-se do egoísmo e abrir-se ao amor a Deus e ao próximo, pelo que o “discípulo, conclui S. Agostinho, será recompensado, pois terá vencido o que a paixão sugeria e terá cumprido o que a caridade ordenava”.  
       O discurso escatológico de Jesus sobre a necessidade de vigiar culmina com uma exigência prática: colocar-se nos ternos e misericordiosos horizontes de Deus. Portanto, quem é vigilante deixa-se guiar pelo amor divino, que o coloca, como proclama S. Francisco de Assis, “no cumprimento da santíssima vontade do Pai”. Ele será, como “luz do mundo” e “sal da terra”, imensa reserva de silêncio, de paz e de verdadeira vida para toda a humanidade. Concretiza-se a criação boa e durável da história. Para os que não conheceram a luz cristã nesta vida, a salvação continua a ser presença do mistério da misericórdia divina. À luz da fé, nós cremos que, objetivamente, a humanidade inteira participa da luz da Transfiguração de Jesus, guardando sempre o pressuposto da liberdade e de uma vida iluminada e guiada por uma consciência reta e justa. Assim cada pessoa, conduzida pelo Espírito divino, é chamada a celebrar a vida e, no abismo da divina sabedoria, viver a vertigem do amor e da misericórdia.   


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

domingo, 19 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 13-21 - Não ajuntar tesouros - Segunda-feira 20 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 13-21 - Não ajuntar tesouros
Segunda-feira 20 de Outubro

       Certa feita, alguém da multidão pede que Jesus seja o mediador na questão de herança entre ele e seu irmão. Embora recuse o pedido, Jesus não deixa de aproveitar a ocasião para elevar o espírito de seus interlocutores e fazê-los passar dos interesses temporais ao “tesouro” eterno no Reino dos céus. Após alertar contra a excessiva preocupação com os bens deste mundo, ele lhes recomenda: “Precavei-vos cuidadosamente de qualquer cupidez, pois, mesmo na abundância, a vida do homem não é assegurada por seus bens”.
Para ilustrar o seu pensamento, Jesus conta a parábola do rico, cuja terra tinha produzido muitos frutos. “Ele, então, refletia: Que hei de fazer? Não tenho onde guardar minha colheita”. Após construir celeiros maiores, diz: “agora, repousa, come, bebe, regala-te”. E Jesus encerra a parábola com as palavras: “Insensato, nessa mesma noite ser-te-á reclamada a alma. E as coisas que acumulaste, de quem serão?” E, voltando-se para seus ouvintes, conclui: “Assim, acontece àquele que ajunta tesouros para si mesmo, e não é rico para Deus”.
         Suas palavras valem não só para os que disputam a herança, mas também para os demais ouvintes. Todos são exortados a se afastarem da avareza, considerada como egoísmo e idolatria, e a se deixarem guiar por uma real atitude de confiança em Deus, que nos torna livres para dispor generosamente de nossos bens e solidificar nossa convivência fraterna. 
       A alternativa não é entre a pobreza e a riqueza, mas entre a realização terrestre, temporária, e a plenitude celeste, eterna. De um lado, a avareza, fechada sobre si mesma, estéril, e de antemão condenada por uma morte inevitável; de outro lado, a generosidade que distribui aos outros, mais pobres, o que se recebeu da liberalidade do Criador e da natureza. Por isso, diante das palavras do rico que dizia: “Vou demolir meus celeiros, construir maiores, e lá hei de recolher todo o meu trigo e os meus bens”, S. Agostinho declara com ênfase: “o estômago do pobre é o depósito mais seguro para os grãos recolhidos”. 
       S. Basílio Magno, referindo-se a este texto, destaca que Jesus “queria conduzir o espírito do homem à generosidade para com os pobres. Toma consciência, ó homem! Quem é esse que dá? Lembra-te de ti mesmo: Quem és tu? Do que és responsável? De quem o recebeste? Por que tens recebido muito mais do que muitos outros? Tu te tornaste ministro do Deus todo bondoso para administrar em favor de teus coirmãos. O que tens em tuas mãos, tu deves considerar como não te pertencendo. Por um pouco de tempo tu gozas destes bens, depois eles passam, e te pedirão contas deles. ‘Dizes tu: que farei eu?’ É necessário dizer: ‘Eu saciarei a alma do pobre, eu abrirei meus celeiros, convidarei todos os infelizes’. Lançarei este apelo magnífico: Vós que não tendes pão, vinde a mim! Que cada um tome sua parte, como de uma fonte que pertence a todos, pois são bens dados por Deus!”


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Mt 22, 15-21 - Dar a César o que é de César - Domingo 19 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Mt 22, 15-21 - Dar a César o que é de César
Domingo 19 de Outubro

As autoridades judaicas queriam colocar Jesus em uma situação difícil quando lhe fizeram a pergunta sobre o pagamento do imposto devido ao Império romano. Havia um ressentimento popular diante do odiado imposto, o que colocaria a população contra Jesus, caso sua resposta fosse positiva. Se dissesse não, estaria fornecendo aos seus adversários elementos para uma acusação política e, assim, obteria de Pilatos a sua condenação.
       Após mostrar que conhecia bem a má fé dos seus adversários, Jesus dá a eles uma lição incontestável, que se apoiava na realidade testemunhada pela própria moeda. A seguir, como de costume, Ele amplia o debate. Primeiramente, Jesus expõe “um princípio geral”, válido no domínio político-religioso, para só então se colocar acima do político e recordar os direitos de Deus. Contra a pretensão de dominação religiosa, Jesus afirma a realidade do domínio político, ao dizer: “Dai a César o que é de César”. Contra o domínio totalitarista e a ingerência indevida no religioso, o cesarismo, Ele afirma os direitos superiores de Deus, os quais devem ser respeitados, ou seja, dar a Deus o que é de Deus. São João Crisóstomo dirá mais tarde: “O preceito de dar a César o que é de César se estende ao que não se opõe ao serviço devido a Deus. Caso contrário, não seria mais um tributo pago a César, mas a Satã!”.
Há, sem dúvida, um profundo significado nas palavras de Jesus. Ele nos recorda que trazemos em nós a imagem (sfragis) de Deus, pois fomos criados à sua imagem e semelhança. Tertuliano observa que se deve dar a César a imagem de César que se encontra na moeda, e a Deus a imagem de Deus que está no homem: “Assim, darás a César a moeda e tu te darás a Deus”. Na opinião de Ghiorghiu Florovski (1893-1979), um dos mais destacados teólogos contemporâneos, Cristo não trouxe aos homens uma carta de liberdade política e de independência, mas uma “carta de salvação”, “o evangelho da vida eterna”, “a liberdade do pecado e da morte, o perdão dos pecados e a vida eterna”, o que causou profunda repercussão na ordem cultural, social e política.
Sem dúvida, a resposta de Jesus foi compreendida pelo fariseu que lhe fez a pergunta maliciosa. Como os demais fariseus, ele considerava as moedas romanas contrárias à Lei por causa da imagem de César nelas gravada. Mas, ao acrescentar que devíamos dar a Deus o que era de Deus, Jesus desperta a consciência de todos para o fato de serem imagem de Deus, o que reduz seus adversários ao silêncio e os leva à admiração. Suas palavras foram hábeis, mas também verídicas. Eis um ensinamento novo, transcendente, que exige ser “meditado em seu coração!”, como exclama São Gregório de Nazianzo, que também nos adverte: “O velho Adão foi ultrapassado, o novo o suplantou. Em Cristo nasce uma nova criação: renovemo-nos”.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

Reflexão do Evangelho de Lc 10, 1- 9 - Missão dos setenta e dois - Sábado 18 de Outubro (Festa de São Lucas)

Reflexão do Evangelho de Lc 10, 1- 9 - Missão dos setenta e dois
Sábado 18 de Outubro (Festa de São Lucas)

Aos setenta e dois discípulos, enviados à missão, Jesus apresenta o Reino de Deus como uma grande messe. Sua abrangência é universal, abarca não só o povo de Israel, mas também os demais povos e nações. O objetivo é semear a Palavra de Deus no coração de todo ser humano.   
Colocado, justamente, no início da subida de Jesus a Jerusalém, esse episódio caracteriza a ação formadora do Senhor, e manifesta o desejo de despertar ardor e fervor missionário em seus discípulos, continuadores de sua missão. Ele lhes concede inspiração e força para que possam tornar a Igreja presente por toda parte, em sua intenção “católica”. Mas mesmo antes de Pentecostes, durante sua vida pública, pode-se já entrever a futura missão universal dos Apóstolos. Orígenes observa: “Não só os Doze Apóstolos pregaram a fé em Cristo, mas o Evangelho nos diz que outros setenta foram enviados para pregar a Palavra de Deus, para que graças a eles, o mundo conhecesse as palmas da vitória de Cristo”. O número setenta é bastante bíblico. Moisés escolheu setenta anciãos para ajudá-lo em sua tarefa de liderar o povo através do deserto. O Sinédrio, conselho que governava o povo de Israel, era composto de 70 membros. Em Jesus, esse número quer expressar a totalidade das nações e povos, para os quais seus discípulos deviam levar sua Palavra e agir no seu poder.
       Os discípulos de Jesus pertencem ao grupo dos artesãos da paz, pois “se houver um homem de paz, a vossa paz irá repousar sobre ele; caso contrário voltará a vós”. No entanto, eles não deveriam alimentar ilusões: se muitos haveriam de acolhê-los, muitos outros iriam rejeitá-los e mesmo persegui-los. Eles irão se sentir “como ovelhas no meio dos lobos”. Mas não sucumbirão, como assinala S. Cirilo de Alexandria: “Eles serão capazes de sobreviver, porque eles têm Jesus como pastor e Ele os protegerá dos lobos em meio às perseguições”. Sem qualquer traço de esmorecimento, eles serão portadores da paz, cuja saudação, destaca S. Agostinho, “é dada a todos, sem discriminação, embora só seja recebida pelos que são filhos da paz”.  


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 1-7 - Falar abertamente e sem temor - Sexta-feira 17 de Outubro

Reflexão do Evangelho de Lc 12, 1-7 - Falar abertamente e sem temor
Sexta-feira 17 de Outubro

       Após exortar os discípulos a testemunhar o Evangelho, com o risco da própria vida, Jesus repete por quatro vezes: “Não tenhais medo”. Sem jamais titubear, eles deverão manter-se firmes na fé e na alegria da esperança, pois a fidelidade deles na “confissão de fé” corresponderá à fidelidade de Jesus em reconhecê-los na glória celestial.
       A seguir, visando fortalecê-los em sua missão apostólica, o Mestre descreve quatro antíteses, cujo objetivo é inculcar-lhes a certeza de que a verdade acabará prevalecendo, pois “nada há de encoberto que não venha a ser revelado, oculto que não venha a ser conhecido”. Ademais, o que lhes foi ensinado na intimidade da vida apostólica, eles irão proclamar, com força e sem temor, a todos e publicamente. Eles nada têm a temer. O mesmo se diga dos sofrimentos suportados na sombra dos calabouços ou das salas de tortura, pois, graças à promessa do Senhor, eles irão refulgir no palco das arenas, ou seja, no grande dia do julgamento final, diante do Senhor.
Desse modo, com palavras simples, concretas e vivas, Jesus lhes transmite ternura e doçura, e lhes garante que agirá neles e por meio deles, despertando no âmago de seus corações a certeza de que são amados e que amar a Deus não é um dever, é um grito de reconhecimento pelo fato de Ele os ter amado por primeiro. Por isso, diz S. João Crisóstomo, “Ele é chamado o Deus da consolação e das misericórdias”.
        Os discípulos sentem-se emocionados e agradecidos ao ouvirem as palavras amorosas de Jesus, referindo-se ao Pai: “Não se vendem dois pardais por um asse. E, no entanto, nenhum deles cai em terra sem o consentimento do vosso Pai! Quanto a vós, até mesmo os vossos cabelos foram todos contados. Não tenhais medo, pois valeis mais dos que muitos pardais”. Em seus corações, solidifica-se a confiança no Pai. Ele zela e cuida de todos, pois até mesmo as pequenas criaturas são objeto da solicitude divina. E, como anunciadores do Evangelho da justiça, da paz e da misericórdia, eles serão capazes de imolar a própria vida em defesa da mensagem do Senhor, em seus princípios éticos, morais e religiosos. Através dos séculos, muitos os seguirão.


Dom Fernando Antônio Figueiredo, o.f.m.