sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Reflexão do Evangelho de domingo 28 de agosto





Reflexão do Evangelho de domingo 28 de agosto
Lc 14, 1.7-14 - Escolha de lugares

Presente num banquete, Jesus observa como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Contrastando com os fariseus, desejosos de ocupar lugares de destaque, Jesus se volta para os discípulos com o objetivo de conduzi-los, observa S. Cirilo de Alexandria, “a imitá-lo numa vida humilde, modesta e digna de louvor, e a não serem sequiosos de vanglória, como muitos demonstravam no banquete”. Jesus ataca de novo a hipocrisia dos fariseus manifestada pela ânsia de ocuparem os lugares de honra na festa e de serem vistos e admirados por todos. Faz-se uma clara distinção entre os que se colocam no seu devido lugar, os humildes, e os que, ávidos por glórias humanas, procuram afoitamente ser mais do que na realidade são.
Conversão para Jesus é pôr-se a serviço da salvação de seus semelhantes e é promover uma realidade concreta e ativa que toque e converta todos os âmbitos da vida pessoal e comunitária. Os discípulos tornam-se mensageiros de sua ternura e do vigor de sua misericórdia, que tudo liberta e vivifica: participam da Festa da Perfeita Alegria, que “será dada, no dizer de S. Irineu, no dia dos justos, quando os pobres terão uma mesa preparada diante de Deus, que os nutrirá com todo tipo de iguaria”. É a irrupção do novo Reino da confiança incondicional a Deus e do serviço mútuo, que permite aos seguidores do Mestre se desgarrar das riquezas e de tudo o que é supérfluo, sobretudo, da vaidade, dessa terrível vaidade farisaica, que leva a pessoa a se julgar virtuosa e dona do agir divino.
Deste banquete, ninguém é, de antemão, excluído, pois os dons de Deus são concedidos a todos os habitantes da terra. “O Dono da festa, observa S. Ambrósio, ordena que entrem os bons e os maus, para aumentar o número dos bons, para aperfeiçoar as disposições dos maus, e assim se realizem as palavras: os lobos e os cordeiros pastarão juntos” (Is 65,25). Como na parábola dos convidados para a ceia, Ele manda buscar os que estão fora, na praça, os pecadores, para que também eles façam parte da festa e possam trilhar o caminho estreito, cruzando a porta da vida, e, mais tarde, transfigurados, participem do banquete eterno, junto dele. Então, desde já, os convivas, nas dobras da vida, reconhecem a presença amorosa e misericordiosa de Deus, comunicando paz e felicidade perenes.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

Reflexão do Evangelho de sábado 27 de agosto




 

Reflexão do Evangelho de sábado 27 de agosto

Mt 25,14-30 - Parábola dos talentos

 

Jerusalém está bem próxima. Jesus já antevê a cruz como o serviço supremo a ser realizado por Ele para a salvação da humanidade. Nessa situação de expectativa, compreende-se o fato de os discípulos pensarem que o Reino de Deus ia se manifestar imediatamente. Por isso, visando arrefecer o entusiasmo pela instauração próxima do Reino, Jesus lhes conta a parábola dos talentos.
Um homem, de nobre origem, viaja para longe e distribui a dez de seus servos uma quantidade de bens materiais ou, no dizer bíblico, alguns talentos, que eles deverão restituir com lucro. A confiança depositada neles é grande, pois eles poderiam usar seu dinheiro como bem entendessem. Alguns são fiéis e multiplicam o que receberam, obtendo a devida recompensa. Mas um deles, que os guardou embrulhados num lenço e nada lucrou, tem como punição a transferência, até do que lhe tinha sido entregue, aos servidores fiéis.
Segundo a parábola, cabe a cada um a responsabilidade de produzir mais ou perder tudo. Em termos espirituais, ou o discípulo avança em direção a Deus ou retrocede, pois a vida espiritual é compreendida como um combate incessante, denominado “luta invisível”, em que o fato de não produzir torna-se uma regressão. Os dons recebidos, sem ofuscar a beleza da mensagem evangélica, fecundam a vida humana em seu ser e agir, pois, sem destruir a liberdade, eles aperfeiçoam o ser humano, permitindo-lhe tornar-se mais plenamente ele mesmo por seu próprio esforço. S. Boaventura observa: “O dom de Deus, se ele for acolhido, torna o homem mestre dele e do universo. A criação não será um oceano de passividade. Ela é Deus infinitamente fecundo, engendrando filhos, que conduzem a Ele a criação inteira e a humanidade; não meras pedras inanimadas, mas membros vivos” (Étienne Gilson).
Esse crescimento ou ascensão, que converge para a grandeza indizível da vida em Deus, é gradual, e pressupõe construir, constantemente, sobre os talentos recebidos. O ponto de partida é a visão realista de si mesmo, pois, segundo S. Isaac, “aquele que conhece a si mesmo é maior do que aquele que viu os anjos”, e o princípio-chave, que o orienta, se expressa na fórmula: “Gratia supponit et perficit naturam”, que implica uma experiência direta do Criador, pois aperfeiçoada pela graça, a natureza cruza o portal da esperança para participar da comunhão com Deus. Natureza e graça não se opõem, nem se justapõem, mas é, justamente, pelo dom da graça que a natureza atinge a sua perfeição: efetivamente, restaurado por Cristo, o ser humano vive a “amizade com Deus”.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Reflexão do Evangelho de sexta-feira 26 de agosto





Reflexão do Evangelho de sexta-feira 26 de agosto
Mt 25, 1-13 - Parábola das dez virgens
   
    O simbolismo apocalíptico corre como um fio de luz ao longo das mensagens de Jesus, cuja intenção é anunciar o Reino de Deus; vale dizer, a salvação para os “acordados” e o julgamento para os que se fecham à sua mensagem. Mas se o estado escatológico é uma realidade futura, ele é também a experiência presente, acessível em Jesus, do seu amor misericordioso, fonte de perdão e início de um novo caminho na verdadeira nova criação de Deus. Assim, para compreender a parábola das dez virgens, algumas prudentes e outras não, é preciso situá-la na experiência de fé, evitando estabelecer uma correlação entre o relato e o curso real dos acontecimentos.
     Todavia, o “reinado de Deus”, que se apresenta em Jesus e que “ainda está a caminho”, é descrito como uma festa de núpcias ou um banquete. Ninguém é excluído dele. É um acontecimento que exige uma condição: trazer uma lâmpada acesa, símbolo da vigilância ou, no dizer de S. Agostinho, “sinal das boas obras realizadas com coração puro”. Seus ouvintes começam, então, a compreendê-lo, sobretudo, pelo fato de a expectativa do Reino futuro ser traduzida na prática da vida atual, pois trazer uma lâmpada acesa significa conservar a “sobriedade” (nepsis) e “a integridade interior”, alijando do coração o pecado e a dispersão espiritual. Abre-se para aqueles que estão vigilantes, ou melhor, para os que vivem a beleza, a justiça e a sensatez, um futuro de vida pessoal, não limitado ao mundo visível e transitório.  
     As virgens que não tinham suas lâmpadas acesas são consideradas por S. Gregório de Nissa como as que “não tinham em suas almas a luz da virtude, e em seu pensamento a lâmpada do Espírito. Elas são denominadas insensatas, porque a virtude é alcançada e vivida antes da chegada do Esposo”. O sono físico, provocado pela demora do esposo, não impede a vigilância, que é espiritual. Diz A. Feuillet, renomado exegeta: “Velar, é pensar em Jesus; é sentir sua ausência como um vazio imenso”.
Por conseguinte, todos são convidados a participar do banquete, que representa a segunda vinda de Cristo, dia em que todo segredo é manifestado e cada um reconhece o seu nome, a sua identidade em Deus. É o triunfo visível de Deus no mundo e a restauração final da criatura humana: momento em que os seres criados são libertados da situação de pecado e de degradação em que caíram. Quer dizer, deve-se estar prudentemente preparado para a chegada do Senhor, não importa o tempo de sua vinda: o irreparável não é a falta do azeite, mas a ausência do Espírito, que nos santifica e nos torna, pouco a pouco, perfeitos, graças ao amor e a esperança infundidos em nossos corações.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM