sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Reflexão do Evangelho de domingo 25 de setembro





Reflexão do Evangelho de domingo 25 de setembro
Lc 16, 19-31 -  Parábola do mau rico e do pobre Lázaro


A parábola fala de um homem muito rico, não propriamente cruel ou desdenhoso, mas que, simplesmente, ignora o pobre mendigo, prostrado à porta de sua casa, definhando-se. Requintadamente vestido, ele se deleita em sua riqueza, o que leva S. Jerônimo a exclamar: “Ó, mais infeliz entre os homens, vês um membro do teu corpo prostrado diante da porta e não tens compaixão. Em meio às tuas riquezas, o que fazes do que te é supérfluo? ”. Hoje, perante tantos famintos, desprezados e rejeitados, a mesma indignação brama em nossos corações. No entanto, no dizer do Papa Francisco, “muitos se acomodam e se esquecem dos outros, não veem seus problemas, suas chagas e dores. Estes caem no indiferentismo”.
Quando ambos morreram, os anjos levaram o pobre Lázaro “para junto de Abraão”, enquanto o rico permanece “na região dos mortos, no meio dos tormentos”. O abismo que os separa foi criado ao longo da vida terrena, pois Lázaro não é simplesmente um pobre, mas representa também um homem de fé, que não perde a esperança em Deus, apesar de uma vida adversa e sofredora. Aliás, o nome Lázaro significa “Deus é meu auxílio”. O rico indica alguém que, neste mundo, não vê nada além das riquezas, permanecendo preso aos bens materiais e aos prazeres humanos.  É significativo o fato de Jesus, observa S. Agostinho, “não se referir ao nome do rico, mas dizer apenas o nome do pobre. O nome do rico andava de boca em boca, mas Deus não o nomeia; silenciavam o nome do pobre, mas Deus o revela. Assim, Deus, que habita no céu, silencia o nome do rico porque não o encontra inscrito no céu. Porém, declara o nome do pobre porque aí o encontra inscrito, por sua própria solicitação”.
Pródiga em imagens, a parábola retrata a retribuição concedida a Lázaro e os sofrimentos do rico. Severidade do Mestre? O foco da parábola é outro; o que é ressaltado, não são os sofrimentos do rico, mas os ensinamentos dos profetas, que falam da esmola e de suas consequências para a eternidade, pois ela “cobre uma multidão de pecados”. Com o tempo se esquece das ideias fundamentais de paz, de partilha de bens e de caridade. Em Jesus Cristo recebemos a resposta definitiva de que o serviço de amor e solidariedade é caminho para a vida e que a figura dos pobres emerge como força salvadora, por serem eles, no dizer de S. Gregório de Nissa, “os administradores da nossa esperança”. Consequentemente, a parábola anuncia uma experiência de profunda intimidade com Deus.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

Reflexão do Evangelho de sábado 24 de setembro





Reflexão do Evangelho de sábado 24 de setembro
Lc 9, 43-45 - Segundo anúncio da paixão


O primeiro anúncio da Paixão deu-se após a confissão de Pedro em Cesareia. Na ocasião, Jesus confere a Pedro uma função de primeiro plano em sua Igreja: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Naquele momento, Pedro não tinha ainda compreendido a missão do Mestre em toda a sua extensão. Presos à imagem do Messias terreno, que iria restaurar o reino de Israel, os Apóstolos sentiam dificuldades em acolher o anúncio do seu sofrimento e de sua morte dolorosa. Desta vez, porém, eles já têm conhecimento dos ensinamentos de Jesus e da sua rejeição a todo poder terreno.
Com efeito, o segundo anúncio deu-se após a Transfiguração de Jesus no monte Tabor, momento de glória e de intimidade com o Pai. “Lá diante deles, escreve S. Cirilo de Alexandria, Jesus se transfigurou, seu rosto resplandeceu como o sol. Mostrando-lhes a glória com a qual, no tempo devido, ele ressuscitaria dos mortos, prepara-os para que a hora da cruz e de sua morte não fosse ocasião de escândalo”. Mesmo assim, os Apóstolos não deixam de estranhar suas palavras, pois não tinham entendido bem a razão do seu sofrimento e que papel eles iriam desempenhar em tal acontecimento. Eles tinham a convicção de que a irrupção do Reino de Deus era iminente e significava o refazimento do reino de Davi. Mas Jesus o entende de modo diferente: o Reino é a manifestação da incondicional vontade divina de salvar, que o Apóstolo S. Paulo bem compreendeu e proclama: “Todo Israel será salvo”, isto é, a totalidade de Israel e todos aqueles que receberam o Evangelho pela graça de Deus. A iniciativa é de Deus, que manifesta sua misericórdia a todos.
Evidentemente, a compreensão dos Apóstolos não foi imediata. Só mais tarde, depois da ressurreição de Jesus e de Pentecostes, eles irão compreender que foi justamente com a sua morte que o Filho de Deus se uniu profundamente a nós, identificando-se conosco na solidão da cruz e da morte. Seus olhos interiores reconhecerão que o Deus eterno e imortal uniu-se com a imagem pecadora e mortal, para conduzi-la, por força da graça divina, à sua restauração gloriosa. Na certeza de que os dons de Deus são irrevogáveis, maravilhados, eles levam a mensagem de Jesus para o mundo afora, e estabelecem comunidades, que tem, como centro e coração de sua vida, a Eucaristia, fonte de luz para os cristãos, peregrinos no tempo.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Reflexão do Evangelho de sexta-feira 23 de setembro





Reflexão do Evangelho de sexta-feira 23 de setembro
Lc 9,18-22 - Confissão de S. Pedro


A caminho das aldeias de Cesareia de Filipe, para introduzir os Apóstolos no mistério de sua missão, cujo objetivo era formar e constituir o novo povo de Deus, Jesus pergunta-lhes: “E vós, quem dizeis que eu sou? ”. A resposta de Pedro, em nome de todos, é significativa, imediata e direta: “Tu és o Cristo de Deus”. As palavras de Pedro indicam não só a prova pela qual Jesus deverá passar, mas igualmente a fé dos discípulos, que hão de acolher a sua Paixão. É o seguimento da cruz, caminho de renúncia, necessário para encontrar-se nele e para decidir-se por Ele.
Momento solene e revelador. Arrebatados ao âmago da vida de oração e de comunhão com o Pai, os olhos interiores dos Apóstolos se iluminam e eles reconhecem nas palavras de Jesus uma aquiescência implícita à sua missão de Servo Sofredor. Com efeito, chamando-o de “o Cristo de Deus”, o apóstolo reporta-se, evidentemente, ao Messias, compreendido não como um rei terreno e político, mas como o Salvador esperado e desejado por todos os homens, pois sua missão se estende para além dos horizontes de Israel e atinge todas as nações. É a realização da esperança messiânica: reunião de todas as gentes num só povo, o povo messiânico. Os gentios acolhidos são mais do que os prosélitos, vindos da diáspora; compreendem, também, todos os que se converteriam à sua Palavra, proclamada até as extremidades da terra.
Mas não só. A ação de Jesus vai além da reconciliação dos homens com Deus; estende-se à comunhão dos homens entre si, graças à solidariedade com Ele; melhor, graças à inclusão nele de toda a humanidade regenerada. Bela é a expressão de S. Atanásio: “Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus”. Se a nossa humanidade é a mesma que foi assumida pelo Filho de Deus, então, podemos afirmar que a sua humanidade não é simplesmente semelhante à nossa, mas ela é de fato a que está em nós. Daí a sublime conclusão: nele, nós todos nos encontramos, de maneira que o retorno dele ao Pai já é a nossa presença, em plenitude, junto de Deus. Exclama S. Hilário de Poitiers: “Se o Filho de Deus assumiu um corpo, Ele se fez homem; assim como a Eternidade assumiu o corpo de nossa natureza, nós devemos saber que a natureza de nosso corpo, em Cristo, pode receber o poder da Eternidade”.
A missão de Jesus alcança o seu escopo, porque no coração do Pai, o povo messiânico participa da perfeita unidade no amor.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM