Reflexão do Evangelho do dia 22 de Março de 2013


Sexta-feira – 22 de março

Jo 10, 31-42: Jesus, o Filho de Deus feito homem

 

          Após invocar o testemunho do Pai, manifestado em suas obras, Jesus se volta para seus adversários e pergunta ironicamente: “Por qual delas quereis apedrejar-me?” Eles compreendem sua intenção e, com sutileza de espírito, respondem: “Não te lapidamos por causa de uma boa obra, mas por blasfêmia, porque, sendo apenas homem, tu te fazes Deus”. Acusam-no de insultar ao próprio Deus, o que o tornaria merecedor dos maiores castigos, pois, as palavras de Jesus lhes soavam como negação do monoteísmo, do Deus único da Aliança.

Jesus não se retrata. De modo tranquilo, porém firme e claro, ele declara: “Eu e o Pai somos um (hen)”. O termo grego expressa que os dois constituem uma realidade só. Para os inimigos é o auge da afronta. Eles alçam a voz e o cumulam de acusações, pois, segundo a Lei, “toda a comunidade devia apedrejá-lo”. Consideravam que a presença de um só blasfemador no povo bastaria para macular a comunidade inteira. As palavras de Jesus são entendidas em seu sentido próprio, sobretudo, ao falar ser ele o Filho de Deus. Não se discute a expressão “filho de deus”, em sua conotação genérica. Jesus é incisivo. O próprio Pai declara-o seu Filho. Ele é o Messias ou o Cristo, o Ungido de Deus.

Ele se fez um de nós para que o recebêssemos e fôssemos conduzidos não a um divino anônimo, mas ao seu rosto transfigurado. Exclama S. Irineu: “Como poderia o homem ir a Deus, se Deus não viesse ao homem? Nós não poderíamos ser partícipes da imortalidade sem uma estreita união com o Imortal. Como atingirmos a imortalidade, se ela não se tornasse o que somos e assim fôssemos adotados e nos tornássemos filhos de Deus?” É a vinda (kénosis) do Filho, que assume a condição de escravo, sem deixar de ser plenamente Deus. Diz Orígenes: “Por compaixão do gênero humano, ele sofreu nossas dores, antes de abraçar a cruz, antes mesmo de ter assumido a nossa carne”. No plano eterno de Deus, o Filho abraçou, desde toda a eternidade, a humanidade em seu infinito amor. Ele é “paixão de amor”. Assim também o Pai, pois se ele “carregou as nossas dores”, o Pai suporta “a nossa conduta”. Deus é misericórdia. Somos nós que, por vezes, não reconhecemos, no rosto amoroso do Filho, o rosto misericordioso do Pai. No Filho Único, fomos constituídos filhos adotivos do Pai, convocados a refletir Deus, que, pela graça divina, nos tornou “participantes da natureza divina” (2Pd 1,4). 

 

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

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