Reflexão do Evangelho de terça-feira 24 de maio



Reflexão do Evangelho de terça-feira 24 de maio
Mc 10, 28-31 - A recompensa pelo desprendimento
      
       Em Francisco de Assis, o desprendimento foi vivido na renúncia aos bens materiais e na prática de uma vida simples e despojada. Ao não possuir nada, ele oferece uma nova compreensão da vida, cujo modelo é Cristo, que viveu de maneira visivelmente humilde e pobre. Essa fidelidade ao legado de Jesus permite “ao corpo, escreve Evágrio, tornar-se ligeiro, alegre, e munido de asas”: é viver em simplicidade a realidade de Deus, que é mais forte de tudo o que está no mundo. Exatamente por essa razão, os ícones representam S. João Batista com asas.
Muitos outros termos, que remontam às tradições pré-cristãs, foram adotados pelos cristãos para designar o desprendimento ou a renúncia: purificação, ascese, mortificação e domínio de si mesmo. Utilizados sem uma conotação negativa, tais termos têm um sabor espiritual, que nos permitem olhar para as coisas comuns e para as pessoas comuns, de modo a deixar, no dizer de Orígenes, “o divino Mestre liberar do meio das areias, presentes no fundo de nossa alma, o poço de água viva, na qual se vislumbra a imagem de Deus escondida em nós”. Ao desprendimento une-se também a ideia de conversão para Cristo, em que o convertido é convidado a entregar aos pobres seus bens e dedicar-se à caridade, como prova de sua consagração a Deus.                   
       O desprendimento não resulta do medo de viver ou do ócio da vida, mas brota de um coração livre e alegre, movido pelo desejo de estar em comunhão com Deus e com o próximo. Mais ainda. Através dele, o cristão é um ser de amor e de ternura; é um apóstolo e testemunha, que já participa da recompensa prometida para o final dos tempos, pois a passagem para um mundo novo não significa ruptura dualística: trata-se da verdadeira nova criação que já está se estabelecendo agora, embora de maneira velada. Não é questão de opor o hoje a um mundo vindouro, mas reconhecer, pela fé, que o Reino de Deus, que está atuando no momento presente, chegará à sua plenitude no futuro.
Como se depreende de todas essas considerações, a renúncia ou o desprendimento, fruto da audácia de se viver na bondade e na misericórdia divina, é resposta amorosa da natureza humana, que, em seu desejo de felicidade e de comunhão com Deus, libera o coração do homem para a alegria, a paz e a tranquilidade interior (hesequia). Assim, através dos limites da realidade finita, passamos para uma plenitude de vida e de doçura, no amor sincero até mesmo aos nossos inimigos. Portal para uma vida plena, o desprendimento leva-nos a proclamar que Deus continua a abençoar a criação e a dizer que “ela é sinal, segundo S. João Crisóstomo, da benevolência e da bondade divina”.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM


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